Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Minha Última Guerra

Da minha janela,
todo o espaço que é mundo
(lá daquele canto até o outro),
não me cabe.

Meu peito,
inchado,
está ativando os pinos
de um campo minado.

Dentro de mim

começou a última guerra.


Samantha Abreu

Because the night

Música que me enche de impressão de tê-la ouvido a vida inteira. E até que foi mesmo por uma boa parte de anos, em várias versões.
Tenho vontade de cantá-la, queria que fosse minha. Mas Patti a escreveu com Bruce, em 1978, e eu aceito porque os dois são phódas. Mas dá vontade dizê-la, dá um gosto doce na boca cada palavra.

Because the night belongs to lovers: aqui!
.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

A Fome do Mundo

foto de tryt
.
Quando se percebeu sozinha, resolveu nada perder.
Teve a brilhante idéia de colocar para dentro de si um universo repleto de essencialidades. Pela garganta, passavam suas coisas preferidas: dedos do namorado, uns fios de cabelo, os botões do controle remoto, o rabo do cachorro, um gole do perfume, algumas letras do teclado: um mundo só seu.
Um reino na barriga. Era o que ela armazenava, princesa.

Na origem do desejo, era sua ganância por particularidade que mais a tentava. Era apenas a necessidade de uma vida cheia de vontades realizáveis. Não se dava conta, entretanto, que a certo ponto de comilança desvairada, os vestidos não mais lhe cabiam, as calças esticavam apertadas. Mas a febre devoradora a atiçava: o que mais você quer ter, Judith? Coma! Coma!
Um lábio arrancado no beijo, uma criança perdida, alguns insetos, um jardim, as lasquinhas do automóvel, Judith comia. Foi empregando para cada coisa dentro se si, no estômago, uma função insubstituível. Os amigos, os inimigos, o pai, a mãe, o sangue.

Judith não mais podia se contentar com pouco, a fome a consumia, doía a barriga, ardia a garganta. Precisava comer tudo o que via pela frente para que tal mundo, só seu, fosse, então, completo e cheio de seus eternos sonhos. Engoliu tudo o que sempre quis ter, mas o mundo externo e coletivo não lhe dava a licença para.
Tinha, passando pela garganta e em processo de digestão, um universo próprio.
Gorda, Judith devorou o mundo.


Samantha Abreu

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

moralismo burro ou apenas censura ressuscitada

Fico assustada de imaginar que corremos o risco de regredir em muitas conquistas artísticas e libertárias. Sabe do que eu tô falando?
Voltamos a ter acessos descabidos de moralismo barato em algumas cidades do Brasil. Livros estão sendo retirados das bibliotecas escolares com o argumento de que 'ferem e influenciam negativamente' os jovens por tratarem de assuntos como violência, sexo, morte. O pior disso é que as ações têm sido tomadas de forma autoritária, contra o que se entende por desenvolvimento cultural e educacional e com total falta de argumentos convincentes.
.
Para se ter idéia do absurdo, livros de história foram recolhidos por apresentarem gravuras com rituais indígenas de execução dos adversários. Ah, minha gente... e isso não é justamente a história? Não se costuma estudar isso na escola? Ou ainda precisamos ter os livros didáticos pasteurizados, com modelos sociais determinados, que formam cidadãos convencionados e sem atitude?
Dois livros de literatura foram tirados das prateleiras: uma coletânea de contos chamada Amor à Brasileira; e Um Contrato com Deus, de Will Eisner. Os dois acusados de tratarem assuntos inadequados como estupro, violência e sexo. No caso do Eisner, ironicamente, trata-se de relatos de memórias infantis dele mesmo.
Será que em algum momento se cogitou a idéia de que o estudo crítico de literatura desse tipo é que formará jovens atuantes, conscientes e embasados? O senhor vereador Jair Brugnago (do PSDB, obviamente) e seus colegas de militância pensam em acabar com todas as más influências aos jovens de que forma milagrosa? Proibindo músicas, tirando programas do ar, queimando livros? E como será que pretendem acabar com a péssima influência política que os jovens têm hoje, por conta dos belos exemplos de canalhice em nossas câmaras e senado? Queimando esses políticos na mesma fogueira? Ou agindo apenas dessa forma colonialista e hipócrita?
.
Sim, estou indignada com tamanho disparate. Um dos maiores motivos de vergonha do nosso passado está sendo ressucitado: a censura.
Daqui há pouco tempo, teremos gente sendo condenada pelo simples fato de pensar e expor, de forma artística, o que pensa sobre a política, sobre a sociedade, sobre a hipocrisia e, principalmente, sobre esse moralismo burro.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Desiguais

leszek kowalski
.
Todas as manhãs,
divido-me em duas,
gêmeas
tão ímpares quanto as pessoas
apressadas
do expresso 2222 ao forte sem açúcar,
na estação central.
Ilusões, ambições, amores
desiguais.

Brigam, as duas,
incansáveis, entre si.
Uma de cada lado,
a me sussurrar no ouvido
desejos.

Só a noite me salva.
Posso, dona de mim,
dominá-las.
Dormem, as duas crianças, exaustas.
Então posso
ser.
Posso, a mim, servir.


Samantha Abreu

Domingo, 31 de Maio de 2009

Quadrinhos no Cemitério

Sempre achei que os Quadrinhos fossem uma arte plural. E é. Sim, estou falando sobre bons quadrinhos, de roteiros bem feitos e, na maioria, adultos, com conteúdo filosófico e humor bacanérrimo.
Mas o legal disso tudo é que, cada vez mais, um mundarel de gente tem se interessado e passado a reconhecer a arte como visual, literária e plástica, por que não?
Pois bem, a partir do dia 03 de Junho, teremos, em Londrina, uma série de eventos direcionados aos quadrinistas, aos fãs, apreciadores, leitores e afins.
Segue aí uma programação muito bacana, que será hospedada pela Vila Cultural Cemitério de Automóveis.
.
Sessões de paletras, workshops, cursos e oficinas, com temas que vão do nu artístico, passando por fotografia e semiótica, até um laboratório de roteiro:
.
.
Além disso, teremos uma Festa à Fantasia no dia 06, e um Sarau no dia 13 com encenação de textos de Will Eianer.
.
















.
.
Se você for daqui ou estiver em Londrina, está convocado!

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

O cara lá de casa

Eu ainda era menina quando escutava rock’n roll num volume estridente vindo da sala. Ele apagava todas as luzes e nos proibia de interrompê-lo. Também era garotinha quando andávamos de bicicleta no domingo pela manhã, como se eu fosse a única companhia que realmente importasse pra ele. Não tinha nem dez anos quando ele me colocava sentada naquelas motos enormes que sempre gostou, e tirava fotos com poses de motoqueira e óculos modelo caçador.
Na pré-adolescência, era o terror dos meus amigos, era o mais bravo, o mais briguento. Ninguém gostava de brincar na minha casa, mas tinha que ser lá, pois ele não me deixava ir para as outras. Não aceitava notas ruins no meu boletim, não me deixava faltar às aulas. Alugava filmes todos os dias para que assistíssemos à noite, depois da novela, ou na correria da hora do almoço. Eu nunca podia escolher os desenhos animados, pois ele sempre me fazia ver ‘os clássicos’. Foi o terror dos meus namoradinhos, dos amigos-meninos e das festinhas de garagens, mas foi ele que me ensinou a continuar em pé quando eu achei que o mundo tinha acabado junto com o primeiro namoro.
Ficou ainda mais próximo quando foi morar em outra casa, sofrendo como poucos e ganhando todo o meu fascínio. A partir daí, não era mais apenas meu pai. Desde então, é meu amigo. Aquele com quem falo de música, com quem tomo cerveja, troco descobertas, com quem discuto horas e horas sobre qualquer assunto, justamente por sermos tão idênticos e teimosos incansáveis.
Foi dele que ganhei meu primeiro VHS do Pink Floyd no aniversário de 13 anos. Dele ganhei, também, um Fiat 147, que só dava problema comigo e nos fez, eu e minhas amigas, passarmos micos memoráveis. Foi na locadora de vídeo dele que trabalhei na adolescência e me tornei essa apaixonada por cinema, embora tenhamos gostos tão distintos (com exceção dos clássicos, é claro).
Sempre achou legais as coisas das quais eu gosto, me incentivou a fazer coisas que as outras pessoas não fazem e me ensinou que amigos verdadeiros e personalidade forte não têm preço.
Meu pai faz 56 anos, hoje. E eu peço, todos os dias, para Deus ou o que quer que seja, que ele viva mais dez vezes isso.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Nossas Bodas de Madeira

foto de anastasia volkova
.
Esse blogue está completando 5 anos!
É dedicação, acredite.

Entrega

“Assim, ela se acostuma a ver e amar um único objeto; seu espírito, quando concebe uma idéia, não a deixa mais, abraça-a, anima-a, vive eterno com ela; sua alma quando chega a amar, é para nunca mais esquecer, é para viver e morrer por aquele que ama.”
.
do livro A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Depois da Guerra

photomaton, no Flickr
.
Depois da guerra, eu tento voltar a mim mesma.
Um combatente em retirada, que entra pelo portão de uma casa que não é mais sua, embora ainda lhe pertença. As pessoas dali ainda têm o seu sangue, mas acostumaram-se à sua ausência. Os lençóis já não o reconhecem, os colarinhos e coisas não mais têm o seu cheiro.
Ele mesmo, soldado vencido, já não se encontra mais em si. Não se acha, mesmo quando vasculha, apressado, as gavetas do peito e da própria cabeça. Não reconhece suas novas cicatrizes, não lhe parece familiar a textura da pele nem os calos nas mãos. É alguém que, no cansaço da luta, se fragmentou em mortos e feridos, e mudou na velocidade do disparo de cada bala.
Sou eu esse guerreiro.
Sou eu que reapareço, trazendo comigo pedaços de corpos e almas que não me pertencem, mas agora fazem parte da unidade necessária para que eu me recomponha e, no devido tempo, retorne ao meu campo de batalha.


Samantha Abreu

é nosso, é nosso...

"Quando se ama, tamanho é o amor, que não cabe em nós: irradia para a pessoa amada, onde topa com uma superfície que lhe corta a passagem e o faz voltar para o ponto de partida; e essa ternura que é nossa, é o que chamamos o sentimento do outro, e mais nos agrada o nosso amor quando vem do que quando vai, porque não notamos que procede de nós mesmos."
.
(Marcel Proust)

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

De Febres e Guerras

foto de Toddy R..
.
Uma carne exposta para que ele acaricie. É assim que sinto quando, meticulosamente, ele me despe de todas as peles e me toma por todas as raízes e nervos.
Vamos construir um palácio, ele diz, vamos mudar pra Veneza, vamos rir pelas ruas, dormir embriagados. Vou te arrancar todas as dermes, todas as noites, vou te despir das máscaras, vou te deixar como és, ele diz. Faremos baderna em igrejas, gritaremos palavrões da janela, levaremos os cachorros da rua pro nosso apartamento. Vou lhe fazer um filho e uma tela expressionista.
Eu ainda não entendi se é loucura ou arrebatamento. Meus pés no chinelo suam, não consigo correr sem cair e ele me alcança, me retoma aos beijos. Ele me mantém no laço ardido do amor e ódio, do bem e do mal. Esse amor é filho da guerra, eu digo, somos inimigos. Ele ri, toma calmamente outro gole, me pega pelo braço e me arrasta até o quarto mais próximo. Ali entendo como sou sempre o país mais fraco. Terrorista, eu grito. Ele me lambe todos os vãos, me morde as sobras, me engole. Nossa febre é vida, meu amor, ele sussurra me arrancando a orelha.
Fadigamos alguns minutos, abraçados. Levantamos e saímos rindo pela rua, chutando pedrinhas e falando obscenidades para que as velhotas de portão nos escutem.


Samantha Abreu

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

a gente nunca esquece

tua mãe já te contou como foi o primeiro beijo dela?

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

técnicas de disfarce

Tudo mal explicado, médio-resolvido, ele pára na porta e fica me olhando.
Disfarço, dou uma piscadinha acompanhada de um sorriso, e continuamos assim.
Segundos que parecem horas.
Mais sorrisos de canto.
- O que foi? – ele me pergunta.
Caralho, como você é lindo, esse seu olho é lindo, seu abraço é um dos melhores do mundo, seu perfume é o meu preferido e morro de vontade de ficar enroscando meus dedos no seu cabelo, pra sempre.
- Nada não.

Blip.fm

pra quem ainda não teve o prazer, conto que é uma delícia brincar de Blipar.
.
.
Sabe o Twiter? Então, é igual, só que você pode fingir que é Dj e fazer altos sets de músicas.
vai lá pra ver!

Terça-feira, 7 de Abril de 2009

FotoConto # 10

.
.
.
.

.
da janela, o que brilha lá fora não é mundo...
é reflexo.

do que é meu

Sabe que, no final das contas, penso que o segredo da felicidade seja uma memória seletiva. Experimente ficar longe da família que te inferniza, dos amigos que te enchem, do namoro que já anda esgotado, das coisas que te pertencem...
A saudade dá à memória uma incrível capacidade de esconder em um lugar pra lá de inalcançável toda lembrança ruim que tenhamos do que temos.
Esqueço como minha mãe me irrita quando fala sem parar, pra sentir uma intensa falta do suco que ele me faz pela manhã. Esqueço de como meu namoro tem me sufocado, pra lembrar como é bom ter alguém que se preocupe em me fazer sentir amada. Da minha cachorra que se esparrama em minha cama, pra companhia que ela me faz no quarto. Da raiva que sinto das minhas amigas quando elas discordam, pra maravilha de uma cerveja gelada sempre que preciso.
Ser feliz, então, passa a ser não mais um estado de espírito, mas uma condição da memória. E evidencia, mais uma vez, que a cotidianidade, quase sempre, nos faz perder a atenção à sensibilidade do que nos é reconhecível.
É nos detalhes que a felicidade se traveste de hábitos. Eu já disse isso.