domingo, 6 de junho de 2004

AMOR

" Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde, as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto, sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito tempo no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo seu gosto pelo decorativo desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar plerplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a supresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha- com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava fora de seu alcance: uma exaltação pertubada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera. "


parte do conto "Amor" de Clarice Lispector

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