quarta-feira, 30 de junho de 2004

A ÓBVIA RESPOSTA

Ele sentou no banco e ficou esperando... aquela praça sempre fora extremamente deserta, e ninguém notaria sua presença ali. Por azar, naquele dia o lugar parecia um centro de lazer. Crianças, cachorros, pipoqueiro, babás. O barulho para ele, era quase ensurdecedor, entrava em sua cabeça como agulha, deixando-o quase louco de tanto tentar se concentrar na tarefa que havia se proposto a realizar.
Pensou em desistir, achou que era bobagem tal atitude, mas sua decisão tinha sido tomada de forma tão racional, que não via um motivo claro para não realizá-la. Simplesmente decidira que não queria mais viver.
Fazia uma semana que estava se preparando em função desse projeto. Quitara todas as dívidas com o dinheiro da poupança, tratara sua família com um carinho indescritível, o que causou até desconfiança em alguns, e preparou a roupa especial para o dia. Deixou também em uma carta, algumas instruções de como alimentar o papagaio e os gatos, aliás, os únicos em quem ele pensava no momento.
Na verdade ele não queria deixar nada escrito, mas se fosse passar instruções oralmente, poderia levantar questionamentos e consequentemente, suspeitas. Tentou evitar cartas ou bilhetes porque as Letras e a Literatura eram as principais causadoras de sua desistência da vida. Não conseguia entender, nem justificar o que sentia. Ele achava que o mundo literário não cabia em sua consciência, e de fato nao cabia mesmo... quanto mais ele tentava, mais duvidava. Sempre lia obras impróprias, via filmes indevidos e se apaixonava por mulheres erradas. Da última vez, em uma das crises existênciais e sentimentais, passou a se auto-denominar Werther, e devorava todo o mundo que circulava o herói de Goethe.
Era, sem dúvidas, uma alma inquieta e inconstante. A explicação que encontrava, já não dizia mais respeito ao que sentia naquele instante, e a busca se tonava um círculo vicioso.
Ficou por horas parado, olhando as crianças na areia, e teve uma certeza: nenhum daqueles pequeninos tinha dúvida da sua funçaõ no mundo, e nem se preocupava em agradar ou atender alguém, simplesmente viviam o momento. Nao sabiam se estariam vivos amanhã, ou ainda mais, nem sabiam da existência da morte.
Nesse momento, teve consciência de que era possível morrer, e decidir estava em suas mãos. Pensou e achou a grande e inquestionável explicação: seria uma criança.
A partir daquele dia, não faria planos nem se preocuparia com o amanhã. Sua vida era ali, aquele momento. Brincaria com a vida, como se construísse um castelo de areia, e quando se cansasse, poderia demolí-lo.
Assim o fez. Levantou, aproximou-se da criança e beijou-lhe a testa, como se agradecesse o esclarecimento. Mas quase foi preso pela guarda, como um maníaco por criancinhas....

SAMANTHA ABREU

2 comentários:

Liza disse...

Fala Samanthao...rss...essa historinha dos limoes vai pegar fogo sabadao!
Quero ver quem vai desmaiar lá...dois limoes nao tres LIMAO....rsss

Beijinhos...Liz

BAR DO BARDO disse...

De: "Sofrimentos do jovem Werther". Para: "O pequeno príncipe".