domingo, 13 de junho de 2004

CRÔNICA DO AMOR INVERSO

O amor tem dessas coisas, pode ser maravilhoso e tudo o que dizem por aí, mas gosta de brincar com a gente.
Ela tinha um jeito engraçado, principalmente quando andava. Ele sabia que todos a adoravam, pelo seu jeito simples, espontâneo e simpático. Falava o que dava na telha, e caia na gargalhada. Ele ficava olhando, nem conseguia rir, de tão fascinado por aquela mistura de molecagem e doçura que ela tinha como ninguém.
Ele amava os momentos em que a encontrava por acaso, eles conversavam sobre coisas diferentes, longe de outras pessoas. Ela o fazia se sentir livre, dava a ele uma liberdade enorme pra falar o que pensava. Com ela, ele não tinha vergonha de ser contraditório, de ser revolucionário e até bobo às vezes. Só não falavam de amor.
Foi assim durante quase todos os anos de faculdade, ele achava lindo tudo o que ela falava, ou escrevia. As perguntas dela nunca eram idiotas, e as respostas que ela dava então... o faziam delirar. Ele aprendeu com ela, muito mais do que a universidade poderia lhe ensinar sobre a vida. Aprendeu a ser sincero, a falar a verdade, aprendeu a se vestir de maneira confortável, aprendeu a opinar e a dar risada... gargalhar mesmo, de verdade, como ela fazia. Aprendeu também, ou melhor, descobriu que escrevia. Fazia textos maravilhosos, sobre qualquer assunto, tinha informações sobre tudo, era divino. Mas ele só conseguia fazê-lo se estivesse imaginando que era para que ela lesse. Aquela história de Musa inspiradora, sabe? Então...
Ele a queria de um jeito, conhecido como poético, não pensava nela de calcinha, nem fazendo a dança dos véus! Imagina com ela, horas e horas de conversa sobre música, cinema e livros. O seu sonho erótico ao lado dela, não passava dos dois sem sapatos, deitados na cama e lendo trechos de contos e poemas que mais gostavam.
Os amigos davam risada, tentavam explicar a ele, que as coisas tinham que ser diferente, que ele precisava falar para ela o que sentia e partir "pro ataque". Mas ele teimava, dizia que um dia ela iria descobrir, e preferia esperar.
Ela, em casa, comentava com as amigas que estava louca por um rapaz meio "nerd", que escrevia super bem, mas que só a via como amiga. Falava sobre os beijos que imaginava na boca dele, e sobre os contos eróticos que poderia ajudá-lo a escrever. Dizia que ao lado dele, sentia-se inteira, pois ele dava atenção a cada bobagem que ela falava, a ainda por cima, ria.
As amigas tiravam sarro, como podia ela, toda solta, sentir-se tomada por uma paixão platônica... e por um cara tão diferente! Ela sabia que ele era mesmo diferente, e isso a deixava encantada, mas queria esperar o momento.
Passaram-se os anos, na formatura, ele já um pouco bêbado, tentou lhe falar do amor que sentia, mas ela antes que ele pronunciasse uma palavra, beijou-lhe a boca e disse que só queria dele aquele beijo, não gostaria que ele se importasse porque não queria perder sua amizade. Ele, pasmado, calou.
Nunca mais se viram. Ela, hoje, casada, dona de casa com quatro filhos, não consegue mais ser a mesma, não consegue mais gargalhar, nem andar de jeito esquisito, não se sente livre ao lado de mais ninguém.
Ele, solteiro convicto e poeta, passará o resto dos anos escrevendo para sua Musa, mesmo sem saber onde ela está e como está. Seus poemas só falam das dores do amor, e quem os conhece, entende que até hoje, ele se pergunta o motivo dela o ter rejeitado.

O amor tem dessas coisas, essas brincadeiras que só entendemos olhando do lado de fora.

SAMANTHA ABREU

2 comentários:

Liza disse...

Ô Sami desse jeito num vai dar nao...venho aqui p/ ler seu blog, e vc nao escreveu nada?....que droga...rss
Volto depois então...beijinhos...Liz

BAR DO BARDO disse...

Saman, que realidade mais trágica. Essa doeu! Musa desencantada e poeta solitário...
Ai!