quinta-feira, 10 de junho de 2004

A Praia

Seus pés afundavam na areia. A areia molhada entrava por entre seus dedos a cada vez que as ondas vinham e voltavam, e ela ao ver aquilo imaginava que sua cabeça devia estar daquele jeito, com os pensamentos totalmente disformes. Não sabia ao certo o que queria da vida, ou o que deveria esperar, na verdade nunca soube, mas especialmente agora essa situação a estava incomodando.
Ficava ali, pensando nisso por horas, e cada vez que levantava a cabeça, tirando os olhos de seus pés, e olhando para o mar, sua vida parecia infinita. Se alguém a visse de longe, pensaria- e com certa razão- que se tratava de algum doente sentimental, fugindo do mundo e procurando colocar os pensamentos em ordem. Mas a cada vez que erguia o olhar, e seus cabelos voavam, sua consciência ficava mais leve, mais calma, não importava o que os outros, meros espectadores, estavam pensando dela.
Ela adorava aquele lugar, o mar era muito mais fascinante do que descreviam livros ou músicas, o mar era seu remédio. Uma cura que talvez jamais tivesse sido para qualquer escritor ou compositor. Era um sentimento incrível, uma atração pelos movimentos das ondas como se estas estivessem esvaziando tudo o que havia dentro dela. Ela ficava tentando avistar ao longe, a dor que sentia no momento em que sentava na areia, e as ondas levavam embora. Parecia enxergar uma nuvem negra em lugar específico, lá no horizonte, onde já era impossível que aquele sentimento voltasse para dentro dela.
Tinha dias em que sua dor era insuportável, seu desprezo por si mesma, e sua vergonha da vida lhe eram sufocantes. Ela chegava em frente ao mar e tinha vontade de sumir dentro dele, para que ele acabasse de vez com a sua inconstância, mas ele teimava em fazer isso em pequenas doses. Nos dias em que se sentia assim, quase derrotada, gritava alto e o vento parecia carregar seu lamento para os quatro cantos do mundo. Suas lágrimas eram mais salgadas que a água do mar. Olhava para o céu e implorava uma resposta por tanta inquietação.
O que ela mais queria era uma vida tranqüila, sem muito luxo, nem incomodações. Queria apenas não sentir aquele vazio que tomava seu corpo todo, como se fosse oca. Perguntava-se o porque de para ela, as coisas não serem simples, nunca. Perguntava isso à si própria, à Deus, ao mar. Ninguém lhe respondia. Ficava então quietinha, reparando na areia se torcendo por entre seus dedos, e chorando baixinho, soluçando, até esquecer.
De repente levantava-se e punha-se a caminhar... já se sentia outra pessoa, tomada completamente pelo encantamento da dança das ondas. A vida já nem precisava mais fazer sentido.
A areia molhada continuava se torcendo entre seus dedos...

SAMANTHA ABREU

Um comentário:

BAR DO BARDO disse...

Entrou em conjunção com a natureza e se equilibrou.