sábado, 5 de junho de 2004

Rotinidade Mórbida

Ao acordar, ela notou que seria melhor ficar na cama, sentiu lá no fundo, como quase sempre sente a respeito de tudo, que aquele dia seria diferente, não bom... O pé pisou no chão gelado e a coluna arrepiou, o cabelo tava todo embaraçado, e suas roupas de frio estavam molhadas, nada seca nesse tempo, nem lágrimas.
Ficou por alguns minutos olhando-se no espelho, e tentando achar uma boa explicação, uma boa motivação pra escovar os dentes, pra pentear o cabelo. Mas não adiantava, nada lhe vinha à cabeça e ali ficou... De repente o susto... tava atrasada, de novo.
Tentou trocar de roupa com pressa, mas seus movimentos pareciam acompanhar seu pensamento... longe, duvidoso. Irritou-se, sentou na cama e chorou. Tinha acordado fazia quase meia hora, e suas tarefas não evoluíam. Pensava em uma razão pela qual tinha que fazer algo que não queira. Seria tão bom se a gente só fizesse na vida o que gosta, o que sente prazer... mas nesse exato, utópico e inconveniente momento, seus olhos percorreram o quarto, e parou no porta-recados, exatamente na conta de luz... e voltou a aprontar-se com rapidez.
Saiu sem comer nada, nao tinha vontade, queria mesmo era um café da manhã de hotel, com sucos, bolos e todas aquelas coisas gotosas quem ela quase nunca comia. Deu uma última olhada pra cozinha e trancou a porta. Não acreditava naquilo... queria tanto sorrir.
No trânsito, as pessoas xingavam, sinalizavam... mas o carro morria, falhava, e ela chorava. O desespero era enorme, tudo a tocava naquele lugar dentro da gente, lá no fundo, onde machuca tanto que a gente só pensa em morrer... em parar de viver. Que ódio daquele carro, ele sabia que ela estava atrasada, que estava sensível, mas não a atendia. Quando parou e estacionou, saía fumaça do motor... ela já não chorava mais. Já tinha se preparado para as coisas que ainda iriam acontecer, sentia como se uma nuvem cobrisse seus olhos e uma fumaça trancasse sua garganta. O peito doía, muito.
De repente, lembrou-se que era dia de pagamento de salário... que bom, pagaria as contas, e compraria uma blusa nova, afinal hoje era um dia em que ela tava mesmo precisando presentear-se. Que decepção, quando não menos absurdo que o valor do seu saldo, era o total de suas despesas... foi uma momento único. Nada mais poderia acontecer... na garganta, um grito estrondoso abafado, não pelo dinheiro, quero dizer, não “apenas” pelo dinheiro, mas pela droga de vida, droga de humor, droga de dia, droga de mundo e de carro, droga de trabalho, droga de cama, droga de pasta de dente, droga de clima, droga de droga.
Levantou, olhou pro céu, e pensou... hoje o meu dia vai ter 57 horas.
Saiu do trabalho, pegou um caminho diferente e se perdeu... deu risada... isso é demais! Quem me dera, eu me perdesse na vida, ou da vida e sumisse, esquecesse de tudo.
Usava suas noites para estudar, e aquele seria um dia deveras, muito, muito impróprio, mas não suportaria sua casa vazia. Não tinha dito uma palavra o dia todo, com ninguém. Precisava ocupar sua cabeça, dialogar com alguém, ainda que imaginário, ou ... literário!
Movimentou-se o tempo todo e não conseguiu descrever de maneira alguma, e pra ninguém o que sentia, a anguútia lhe tomava as veias, e o desespero alucinado lhe saltava aos olhos. Precisava parar, precisava falar, precisava respirar.
Estudou o quanto conseguiu, afinal, entre poucas, essa era a única coisa que ainda lhe dava algum prazer. Depois de nada mudar, resolveu ir pra casa e dormir. Seria ótimo que aquele dia acabasse logo, levando embora seu medo, seu desgosto.
Parou no sinaleiro e o viu. Ele passava... o cabelo voando no vento frio, quase sumindo na neblina. Sentiu até uma vontade mórbida de o atropelar, para vê-lo de perto. Ele andava em frente ao carro dela, como que salvando seu dia, esticando seus lábios de uma orelha à outra. Ela pasmada, boquiaberta, acompanhando cada movimento, dos braços, das pernas, do cabelo... o cabelo. Sentia o cheiro do cabelo, do pescoço. Ele transbordava uma vida, um prazer, uma carga elétrica que paraceia um imã para o corpo dela, a puxava com uma força sem igual.
Ele a olhou pelo vidro e sorriu... um sorriso amigo, reconfortante... como se visse por entre seus poros o que ela sentia, o que ela pensava e o que precisava... daquele sorriso, exatamente aquele, dele, e de mais ninguém.
Ele ainda sorria, com os lábios, com o olhar, com o corpo.
Ela olhou para o céu e gargalhou...
Meu Deus! Meu dia poderia ter 57 horas!

SAMANTHA ABREU

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