quarta-feira, 21 de julho de 2004

ENTENDIMENTERNO

Lucinha tinha começado a ir ao psicólogo com 11 anos. Era rebelde na escola, em casa e com os amigos. Cinco minutos de conversa com alguém era suficiente para ter discutido durante três. Sentia-se sozinha, não conseguia ter amigos e não se dava bem com os pais, aliás, com ninguém da família.
Era linda, tinha um rosto de anjo, por vezes até inocente, o cabelo longo, liso e os olhos atentos, sempre. O rosto era sério, de raro riso, demonstrava discretamente qualquer satisfação.
Ninguém conseguia compreender. Uma menina que tinha tudo, já com 15 anos os pais lhe deram a liberdade pra fazer o que bem entendesse, mas ela não conseguia, sentia-se amarrada. Tinha dinheiro, tinha beleza, tinha estética, mas não sabia o que isso podia significar.
Um dia se apaixonou por um garoto, um pouco mais velho que ela, tinha 19 anos e como ela, era um não compreendido. O problema para eles, não era não serem compreendidos por outras pessoas, mas sim por eles próprios. Não sabiam porque estavam no mundo. Os pais dela enlouqueceram. A idéia de que Lucinha pudesse se ligar a alguém nem lhes passava pela cabeça, ela jamais havia se interessado por ninguém.
Os dois viviam como se estivessem em outro mundo, um mundo só deles, repleto de insatisfações, questionamentos, angústias, aflições e drogas. A tristeza que existia dentro do coração do casal lhes aproximava cada vez mais, tornavam-se cada vez mais dependentes um do outro. Mas a inquietação que ele tinha diante da vida lhe era insuportável e resolveu deixar de viver.
Lucinha chegou e tentar negociar com ele um prazo para que pudesse lhe acompanhar, mas não adiantou, ele realmente estava decidido que sua vida acabaria ali. E acabou ... ela o encontrou no chuveiro, com o sangue se misturando a água quente. Ela ficou parada, olhando para a única pessoa que lhe entendera na vida, e se perguntando qual seria a resposta que ele havia encontrado.
Passou uma semana sem ver, nem falar com ninguém. Apenas esperava uma aparição dele lhe dizendo o que a vida significava, e o por que de ela sentir que ainda não havia chegado a sua vez, que ainda tinha que permanecer ali. Mas a resposta não vinha. Não vinha.
Os anos se passaram, ela foi internada pelos pais em uma clínica, e dada pelos médicos como caso perdido.
Na verdade, ela pouco se importava... aquele hospital talvez até nem fosse má idéia, pois poderia ficar sozinha, ou então falar com pessoas que de alguma forma também haviam sido excluídas da vida real, do mundo normal.
Envelheceu ali, e um dia teve a grande resposta.. ele apareceu, com a mesma cara e inocência de quase 50 anos atrás, e lhe deu a tão sonhada explicação. Sua vida realmente não havia significado nada, não havia tido finalidade por um único e simples motivo: Ela não havia vivido. Simplesmente não havia vivido.

SAMANTHA ABREU

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