domingo, 19 de setembro de 2004

ANÁLISE

" Tão abstrata é a idéia do teu ser
que me vem de te olhar, que, ao entreter
os meu olhos nos teus, perco-os de vista,
e nada fica em meu olhar e dista
teu corpo do meu ver tão longemente,
e a idéia do teu ser fica tão rente
ao meu pensar, olhar-te, ao saber-me
sabendo que tu és, que, só por ter-me
consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, nesse ignorar-me a ver-te, minto
a ilusão da sensação e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
que te vejo, ou sequer que sou, risonho
do interior crepúsculo tristonho
em que sinto que sonho o que me sinto sendo."


Fernando Pessoa.

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