terça-feira, 28 de setembro de 2004

BOCA DE ECLIPSE

" Toda vez que ele pensava nela,lembrava da canção universitária, que por tantas vezes havia dedilhado no violão, em luaus feitos por jovens sonhadores e com ideais revolucionários. Todas as vezes, se flagrava cantarolando “tens uma beleza infinita, e a boca mais bonita que a minha já tocou...ououuuuh...”
Nas condições em que vivia hoje, tinha pouquíssimas certezas, e a lembrança da boca dela era uma. Jamais esqueceria aqueles lábios. Jamais. Era como um pedaço de sua vida que ficaria para sempre congelado naqueles momentos em que ela o beijava. Nos momentos em que ela roçava o nariz no dele, e ele podia sentir o gosto da sua boca.
Ela sempre fora uma pessoa expressiva, e cada palavra que saia de sua boca, carregava toda autoridade, toda marca da sua personalidade forte. Dizia tudo o que tinha vontade, e aqueles lábios exóticos pareciam se deliciar com tanto exercício.
Eram lábios espessos, firmes, e tão grandes que muitas vezes se confundiam com o resto do seu rosto. Lábios desenhados, vermelhos e vivos. Quando estava triste, eles pareciam cerrados de tal forma que nenhum tipo de sorriso lhe cabiam, e ainda assim, eram fascinantes, misteriosos e envolventes. Ele ficava por horas a observando falar. Falar dos problemas, das conquistas e, sinceramente, não prestava a mínima atenção nas palavras que ela dizia, ficava apenas medindo, comparando cada movimento que ela fazia com a boca ao pronunciar determinadas letras.
Mas dentre todas as formas que ela dava àquela boca, o que mais o deixava perplexo, era o sorrisinho de lado que ela deixava escapar quando raramente se sentia acanhada, encabulada com algum elogio, ou algum ato de paixão que ele lhe rendia. Para ele, não existia melhor sensação no mundo que presenciar àquele sorriso, aquele trejeito de lábios que o enfeitiçava, como um eclipse lunar, raro e instigante.
Os anos em que ficaram juntos se passaram rápidos, mas foram intensos de tal forma que o fazia comparar todas as mulheres que conhecia a ela. Comparava, esperava dos lábios das outras, o mesmo feitiço, a mesma ação hipnótica, mas era em vão. Aqueles lábios eram únicos, eram dela, eram lembrança.
Ele sabia que viveria à sombra daqueles beijos, viveria à sombra daquela boca que o marcara com voz, com gosto, com hálito, com língua. Sabia que eles eram como um eclipse. Um único, inigualável e inimitável eclipse."
SAMANTHA ABREU

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