domingo, 19 de setembro de 2004

CÓDIGOS


Dona Paulina ensinou à sua filha Rosário que cada ponto do rosto onde colocasse uma pinta tinha um significado. Na face, sobre o lábio, num canto da boca, no queixo, na testa... A pinta, bem interpretada, mostrava quem era a moça, e o que ela queria, e o que esperava de um pretendente. O homem que se aproximasse de uma moça com uma pinta – numa recepção na corte ou numa casa de chá – já sabia muito sobre ela, antes mesmo de abordá-la, só pela localização da pinta. A três metros de distância, o homem já sabia o que o esperava. A pinta era um código, um aviso – ou um desafio.
Anos depois, dona Rosário ensinou à neta Margarida que a maneira de usar um leque dizia tudo sobre uma mulher. Como segurá-lo, como abri-lo, sua posição em relação ao rosto ou ao colo, como abaná-lo, com que velocidade, com que olhar... Só pelos movimentos do leque uma mulher desfraldava sua biografia, sua personalidade e até seus segredos num salão, e quem a tirasse para dançar já sabia quais eram as suas perspectivas, e os seus riscos, e o seu futuro.
Muitos anos depois, a Bel explicou para sua bisavó Margarida que a fatia de pizza impressa na sua camiseta com “Me come” escrito em cima não queria dizer nada, mas que algumas de suas amigas usavam a camiseta sem a fatia de pizza.



LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Nenhum comentário: