sábado, 18 de setembro de 2004

DE VOLTA



Quando saiu, logo da soleira da porta podia ver toda a família esperando. Na verdade, ela mais do que ninguém, esperava por aquele momento. Estava de volta ao mundo, de volta à vida. Foram anos os quais ela queria apenas esquecer, queria sentir aqueles momentos como se tivesse apenas sonhado, nunca deveras vivido.
As pessoas sorriam para ela, sua mãe tinha os olhos cheios d’água, e uma emoção incrível na voz. Seu pai mostrava um rosto de acalento, de remanso que a deixava muito surpresa. Nunca imaginou que pudesse ver aquele homem tão duro e ressequido, comovido.
Todos a abraçaram, saudaram, parabenizaram pela cura, e ela não tinha muitas palavras para dizer. Acostumara-se a falar pouco, a ser reservada.
Quando pensava em esquecer os anos que passara na clínica, sentia até mesmo uma dor no coração. Não queria abandonar as lembranças das amizades que havia feito, das companhias que tinha aproveitado e das lições que havia aprendido. Todos lá eram considerados loucos, incapazes e inconscientes, mas ela os conhecia de outra forma. Conhecia cada dor que sentiam, cada saudade que lamentavam e cada momento e lucidez que às vezes os dominavam. Eram pessoas alegres, conformadas e que só pensavam em ser feliz e viver em paz. Ela por muitas e muitas vezes se sentia como eles, e tinha muito medo. Temia o fato de nunca mais deixar de sentir aquelas dores, aqueles vazios.
No caminho para casa, flashes lhe assaltavam a memória de quando em crise tinha sido internada. Aquele foi um ato extremo, já de desistência da família que não sabia mais como controlá-la, e muito menos entendê-la. Desde a adolescência, enlouquecia os pais com problemas psicológicos, sentimentais e existenciais. Não sabia viver, não tinha paz. O peso que via nos olhos de seu pai quando a deixara nas mãos dos médicos, seria como uma fotografia, que ela nunca mais poderia apagar.
Quando entrou em casa, sentou aquele cheiro, o cheiro que esperou por tanto tempo, um cheiro de amor, de sossego. Cheiro de lar. Seu quarto estava do mesmo jeito, nem com algumas reformas pelas quais a casa havia passado, seu cantinho havia sido mexido. A decoração cor-de-rosa indicava a adolescência que havia sido congelada ali. Em um dos cantos um urso enorme sorria para ela como quem reencontra um amigo, amigo que por tantas vezes havia lhe escutado, havia lhe abraçado. Do lado da cama as revistas, os cds lhe traziam lembranças boas. A cortina, combinando com a colcha da cama tinha nuvens brancas, de fundo pink e os babados caiam pelo chão como se ali dormisse uma princesa. Ela não sabia como entrar naquele quarto, não sabia como se sentar na cama. As lágrimas caiam como um desabafo, como um alívio. Tudo ali, era realmente seu, e de mais ninguém. Não tinha que dividir nada, tudo era para ela. Pensou em fazer algumas mudanças, dar às cores um tom mais maduro e sóbrio, mas isso faria apenas depois de ter matado a saudade, revisto tudo o que havia deixado por terminar, e agora, de uma vez por todas, entender de fato o porquê, naquela ocasião, havia desistido da vida.
Deitou-se devagar entre as almofadas, olhando para o teto cheio de adesivos de lua e estrela e sorriu. Sua vida estava começando ali, naquele momento. Alguns anos depois, ela estava no mesmo lugar, na mesma posição em que tentou se matar, e já não se sentia mais vazia. Sabia porque estava ali. Era para viver. Estava tendo uma nova chance de aprender. Suspirou, ligou o rádio, e ainda estava lá, o mesmo cd, a mesma música, que para ela já não tinha mais o mesmo sentido. Naquele momento, aquela música só lhe fazia ter uma sensação: a de estar viva.



SAMANTHA ABREU

Um comentário:

Liza disse...

oi migaaaa...num to podendo sair nem com as amigas antigas, nem com as novas...provas até dizer chega...mas de qualquer forma..assim que passar te ligo tá!...brigadu pela visita....
bjussss...Liza