quinta-feira, 23 de setembro de 2004

PAIXÃO DO DESENCONTRO

Todos os dias, quando acordava de manhã e olhava ao seu lado, sentia um imenso prazer em vê-la dormindo. A boca toda torta, quase aberta, amassada pelo travesseiro, a respiração constante, como se um anjo a guardasse. Sempre ficava alguns minutos observando-a, entrando no ritmo da sua respiração, e por várias vezes, quase perdia a hora do trabalho. Tinha uma imensa pena de interromper aquele sono para que ela lhe fizesse o café ou se despedisse dele. Ficava hesitando em sair de casa, não sabia se a acordava, ou se ligava mais tarde já do escritório.
Acabava sempre indo embora sem desapertá-la, e para ele o dia passava como se não existisse para ela. Como se ela nem o tivesse notado. Ele, apaixonado, não via o momento da volta pra casa, encontrá-la na sala, de banho tomado e cheirando o xampu de hortelã. Mas o relógio parecia parado, não mexia os ponteiros por nada no mundo, nem quando ele implorava. Já não suportando mais de vontade dela, ele pegava o telefone e ligava: “tililica, seu tchururu tá sofrendo de saudade..”, e ela, estressada por ter passado o dia todo cuidando da casa, respondia “ahã... eu também... mas na volta, passa na padaria.” Depois disso, o trabalho era produtivo, ele sentia um alívio de tê-la escutado, e o tempo parecia voar.
Chegava em casa ansioso por um beijo, um cheiro no pescoço, mas ela se negava. Tinha feito tantas tarefas que ainda nem tinha tomado o banho com o xampu de hortelã, e o mandava esperar na sala. Terminava o jantar, ia para o banho, e se preocupava com todos os detalhes femininos para agradá-lo. Demorava quase três horas para achar uma lingerie sensual e uma camisola provocante. Quando chegava na sala, é ele quem estava com a boca torta, amassada na almofada, num sono invejável.
Ela enchia os olhos d’água, pegava o telefone, corria para o quarto e ligava aos soluços para a irmã: “ele chegou, deitou no sofá e dormiu... eu sabia, não me ama mais, ele tem outra!”. A irmã, indignada refletia a situação e complementava: “Os homens são iguais, todos insensíveis...”
E ele dormia no sofá o sono dos inocentes.... sonhando com ela de camisola, cheirando hortelã.


SAMANTHA ABREU

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