segunda-feira, 18 de outubro de 2004

CONFUSÃO DE QUERER

Enquanto a professora falava, eu imaginava como seria a representação psicodélica do que eu sentia naquele momento. Sentia coisas impossíveis. Eu sempre tinha sido atraída por coisas impossíveis, até com um certo sadismo, ambicionava alcançar o inatingível. Sonhava em crescer, em realizar. Não aceitava, de maneira alguma, a possibilidade de terminar a vida sem ter conquistado tudo o que quis.
Sempre que me sentia ameaçada, eu questionava atitudes que pudessem me desmotivar, evitava pessoas que me aconselhassem a parar por um segundo que fosse, e por conta disso, passava muito tempo sozinha, mesmo em companhia de muitos. Relacionava-me apenas comigo mesma e com meus desejos, desejos esse incapazes de se realizar pelas mãos de outra pessoa. Nessa solidão imperceptível, sofria por não suportar a inquietação do meu coração. Não havia porto, não havia ancora, não havia peso que me segurasse.
Naquele momento, a professora continuava falando, e eu estava estática, com, os olhos arregalados, mas não a estava ouvindo. Procurava naquela mistura de imagens que representava minha loucura, um sossego para minha alma. Suspirava por algo que pusesse fim àquela angustia, e tentava encontrar uma luz naquele labirinto de sensações, naquela aquarela suja de cores misturadas, cores essas, que não passavam de signos para classificar minhas buscas, meus anseios.
Eu queria muito ter saído dali antes, mas as portas da sala me impediam. Na verdade, eu já tinha ambicionado uma vez, alcançar o que aquela aula seria capaz de me proporcionar, e isso me prendia ali. Sentia-me presa para lutar por algo que eu estava sendo sufocada, justamente por não poder desistir de alcançar um desejo ainda não realizado. Entrei em conflito com minhas ambições, passei a odiar o incessante ciclo vicioso de vontades no qual eu estava inserida. Não queria mais pensar sem poder realizar, buscar sem encontrar, querer tentar e não poder.
A ansiedade de fato tomou conta do meu corpo e eu sentia que algo dentro de min estava prestes a explodir, como se todos os meus músculos estivessem contraídos e esperando pelo relaxamento súbito. O conflito ainda angustiava cada vez mais o meu coração.
Junto com todos aqueles flashes de cores, buscas e desejos, eu procurava paralelamente uma forma de dar um final feliz àquele suplicio, àquele papel vergonhoso de impotência o qual estava me prestando. Odiava e não queria mais me sentir incapaz de buscar o que desejava agora, por estar conquistando o que havia ambicionado antes. Minha cabeça parecia pirar. Meus olhos continuavam estáticos diante daquelas cenas coloridas de um cinema mudo e pós moderno.
De repente, pisquei. Olhei para o lado, e todos me observavam esperando uma reposta à pergunta feita pela professora sobre minha presença na aula. Respondi a chamada, saí apressada, quase derrubando todo o material. Não me lembrava mais do que havia sonhado, mas meus músculos doíam como uma contração perene de nervos e tensões emocionais.

SAMANTHA ABREU


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