segunda-feira, 25 de outubro de 2004

Devaneio e embriaguez

(...) Era a tristeza.
Os dedos do pé a brincarem com a chinela. O chão lá não muito limpo. Que relaxada e preguiçosa me saíste. Amanhã não, porque não estaria lá muito bem das pernas. Mas depois de amanhã aquela sua casa havia de ver: dar-lhe-ia um esfregaço com água e sabão que se lhe arrancariam as sujicidades todas! a casa havia de ver! ameaçou ela colérica. Ai que se sentia tão bem, tão áspera, como se ainda estivesse a ter leite nas mamas, tão forte. (...) Ai que tristeza. Que é que se há de fazer. Sentada no bordo da cama, a pestanejar resignada. Que bem que se via a lua nessas noites de verão. Inclinou-se um pouco, desinteressada, resignada. A lua. Que bom que se via. A lua alta e amarela a deslizar pelo céu, a coitadinha. A deslizar, a deslizar... Alta, alta. A lua. Então a grosseria explodiu-lhe em súbito amor: cadela, disse a rir.



CLARICE LISPECTOR
Parte do conto “Devaneio e embriaguez duma rapariga

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