domingo, 31 de outubro de 2004

REVOLUÇÃO DE BOTEQUIM

O marido saiu para trabalhar e a deixou espreguiçando feito uma criança em dia de feriado. Ele foi para o trabalho, como fazia todos os dias de manhã, apaixonado pela mulher que havia deixado na cama. Não tinha outras grandes satisfações na vida como a de acordar ao lado dela, e quase morrer de saudade durante todo o dia para vê-la novamente ao cair da tarde. Era um marido fiel, dedicado e também amado por ela. Sentia-se assim.
Ela, ficava cuidando do lar, demandando tarefas à governanta, que também lhe era muito dedicada. Pedia que as almofadas da poltrona ficassem arrumadas do jeito que ele gostava, que o controle da televisão ficasse sobre a mesinha de canto, ao alcance de suas mãos quando ele deitasse para assistir ao telejornal. O jantar, tinha que ser com o tempero preferido dele, a salada com as folhas que ele mais gostava e a sobremesa esperando na geladeira. Esperando assim como ela fazia.
Naquele dia, ela resolveu sair após o almoço para algumas compras. Queria caminhar um pouco e escolher ela próprias às frutas e especiarias que seriam preparadas no jantar. Aprontou-se com o vestido de flores miúdas que lhe deixava com ar recatado e a fazia sentir-se leve, à vontade. Prendeu os cabelos como a muito tempo não o fazia, deixando transparecer um ar despojado de obrigações e carregado de prazer. A franja lhe caía sobre o nariz, fazendo com que ela levantasse o olhar e a sobrancelha. Estava misteriosa.
Pegou a sacola de compras e foi caminhando até a feira. Andou como se tivesse nuvens sob os pés. Caminhava como a mais feliz das mulheres, como se a sua vida fosse independente do mundo social à qual fazia parte. De fato, quem a observava, tinha a nítida sensação de que ela não pertencia a esse mundo, sua paz e sua felicidade transpiravam pelos poros, ela tinha um sorriso maroto nos lábios e vontade de cumprimentar estranhos na rua.
Parou em uma esquina, e em um bar, homens e mulheres riam, gargalhavam e bebiam. Pensou como seria bom misturar a paz e a tranqüilidade que sentia com a alegria daquelas pessoas. Entrou no botequim, com a sacola pendurada nos braços e pediu uma cerveja. Bebeu a primeira sozinha, e já um pouco alterada pelo efeito do álcool tão ausente em seu organismo, fez amizade com os companheiros de balcão. Ria de si mesma. Ninguém no mundo jamais imaginaria vê-la ou encontrá-la naquele lugar, e isso a divertia em extremo. Estava sentindo um pulso de rebeldia em seu sangue, aliás, sangue que começava a ferver com uma intensidade assustadora. Ria cada vez mais alto, contava piada, contava histórias de seu marido, das épocas de solteira, das festas na faculdade.
O jantar que queria tanto preparar para o marido nem lhe trazia à lembrança, o dever de voltar para casa. Os amigos do bar estavam superando qualquer êxtase momentâneo que o marido pudesse lhe dar. Jamais sairia dali naquele momento. Passou horas conversando com gente que nunca tinha visto na vida, rindo de gente que jamais conheceria em seu cotidiano, compartilhando alegria com estranhos tão íntimos aos seus desejos de liberdade. Quando se deu conta o sol já havia caído e precisava, deveras, voltar para casa. Despediu-se dos companheiros e voltou, com a sacola vazia. Suas pernas pareciam bobas e os braços moles. Ainda tinha um sorriso nos lábios, mas agora era por ficar lembrando das piadas que ouviu, das tantas coisas engraçadas que falou.
Entrou em casa e seu marido a esperava no sofá, sem ter desarrumado uma almofada sequer. Quando viu aquela cena, disparou um riso sarcástico e carregando de intenções de mudança. Ergueu o vestido, sentou no colo dele e fizeram amor como loucos. Sem trocar uma palavra.
Ele, pela primeira vez em anos dormiu nu, sem o pijama de mangas. Ela dormiu como nunca na vida, satisfeita com a revolução que aquele dia havia significado para ela. Uma revolução dentro da sua mente. Não era a mesma, jamais seria. Agora sim, não era uma boneca. Era uma mulher.
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SAMANTHA ABREU

Um comentário:

Liza disse...

Fala Sami...adorei nossa noitada de sexta...O holandes adorou tb...depois coloco as fotos no blog...ok?
E ve se me chama amanha heim...rss
...Liza