domingo, 26 de dezembro de 2004

Uma Nostalgiazinha....

Não sei dizer, com vinte e quatro o que realmente vale a pena na vida, e devo guardar no coração.
Isso pode não parecer nada, mas me sinto confusa e de cabeça cheia de coisas que tenho medo de esquecer.
Não trabalhe demais, mas o trabalho é recompensador.
Não ame demais, mas só o amor constrói.
Não desrespeite seus pais, mas nos sentimos tão ameaçados.
Tem coisas que a gente só entenderá quando olhar para trás, e disso não duvido.
Coisas que a gente sentirá saudade quando olhar as fotos.
Juro que quero ao meu lado na velhice, pelo menos uma pessoa que me conheceu na juventude. Alguém que me faça recordar das risadas, das brincadeiras, dos choros, das dúvidas, das crises existenciais de onde tirei tantas decisões importantes, e das outras crises de onde sai com cara de quem estava fazendo tempestade em copo d’água.
Quero alguém que me faça dar risada das vezes que achei que ia morrer de dor de cabeça, e na verdade não passava de manha. Quero alguém que me ajude a cuidar do meu filho, me lembrando o que fiz quando quase morri de febre depois de tomar banho de chuva na rua.
Quero meu amigos.
Talvez eu saiba lá no fundo, o que realmente vale a pena na vida, mas dói muito esquecer coisas que vivemos, e de repente temos que considerar como “não importante”.
Dói ter que esquecer, aquele dia que coloquei a roupa mais simples do mundo e atravessei a rua pra comprar um pão na padaria. Dói esquecer o dia em que fui ao mercado e comprei um xampu com cheiro gostoso. Não quero esquecer nada.
Vi alguém dizer as pessoas mais interessantes do mundo ainda não sabiam o que fazer da vida aos vinte e cinco anos. Prefiro pensar assim.
Eu já disse uma vez que quero minha vida sempre uma caixinha de surpresas, que fosse como uma história contada em prosa... sem rima. E quero mesmo.
Quero lembrar das coisas boas, das coisas ruins. Quero lembrar com carinho dos dias inesquecíveis, e quero lembrar com saudade dos dias simples... dias em que só "viver" já bastava e já tinha sua importância, mais nada.
Quero olhar pra trás, pra quando eu tinha quinze anos e sentir carinho ao lembrar da preocupação do meu pai em não me dixar sair à noite. Do cuidado do meu pai em saber com quem eu andava, onde eu ia e por quê. Como faz falta alguém se preocupar com você.
Quero olhar para quando eu tinha vinte anos, e lembrar de como era engraçado o fato de meu pai não entender como eu não tinha namorado e ‘ficava’ com os meninos quando saia à noite com minhas amigas. Ele jamais vai entender isso analisando a própria filha!
Quero lembrar com remorso, e com um pouco de sensatez também, das vezes em que critiquei minha mãe, pelas vezes em que coloquei tanto defeito nas coisas que ela fazia. Principalmente o arroz empapado!
Quero lembrar das festas de fim ano com a minha família. Da comemoração com baldadas de água fria quando dava meia-noite. Quero que meus filhos ainda participem disso. Quero também que meus filhos sintam a magia de ver o Papai Noel chegando com o saco de presentes que a gente espera o ano inteiro, e depois brincar com os primos, brigando para ver de quem é o brinquedo mais legal! Esse sentimento infantil parece cheiro de bolo de chocolate saindo do forno... a gente morre de vontade!
Quero lembrar para sempre da cachorra brava que a gente tinha em casa quando eu era pequena. Cachorra que não gostava muito de criança, mas que depois que cresci um pouco, já pude brincar com ela, e por isso me achava adulta!
Meu Deus... quero lembrar de tanta coisa.... quero saber explicar tudo isso para meu filho... quero explicar para ele o que eu sentia, e Meu Deus! Quero muito entender o que ele vai sentir.
Quero envelhecer sabendo que carrego um pacote cheio de recordações boas e ruins. Recordações que são minha história e das pessoas que viveram ao meu lado. Quero essa caixinha comigo quando eu morrer. Quero carregar pra onde eu for, para seja lá o que eu me tornar, a lembrança do que fui e do que aprendi.
Com carinho.
Samantha Abreu

Um comentário:

BAR DO BARDO disse...

A caixinha se chama coração, Samantha. E o seu texto é comovente...