sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

A DESCOBERTA DO AMOR


Quando o primeiro filho nasceu, ela olhou para aquele bebê, tão desprotegido e frágil, e entendeu sua vida a partir daquele momento. Deu-se conta, de uma maneira que não se explica com palavras, que dali pra frente, não estava mais sozinha, nunca mais.
A criança era toda sua realização de vida adulta, toda sua ambição por maturidade. Não conseguia mais olhar pra trás e se imaginar na vida de solteira, com as primas e as amigas. Lembrava das festas, das farras e aqueles momentos lhe pareciam historias contadas, histórias das quais nunca fizera parte. Às vezes, até sentia falta daquele alvoroço, sentia nos nervos uma paixão, um desejos ardente de voltar a fazer parte daquele mundo. Mas esse fervor adormecia, junto com seu sono depois de noites em claro pelas cólicas do filho.
Ela tentava muitas vezes, entender aquele sentimento tão reconfortante que sentia a cada vez que olhava aquele serzinho tão pequeno em seus braços, sentia que, pelo menos para alguém no mundo, ela sempre seria indispensável, sentia que finalmente, alguém no mundo não viveria sem ela, de fato.
Quantas vezes, na infância, duvidara do amor dos pais quando estes davam preferência na briga à sua irmã mais nova. Depois na adolescência, duvidava de sua importância para o mundo e inúmeras vezes tentou se voltar contra tudo e todos. Na juventude, foi a crise dos amores, era ciumenta, duvidava das paixões dos namoradinhos. Sabia que quase sempre, eram bobagens de sua cabeça, coisas que ela mesma colocava sob seus pés para que de repente tivesse uma desculpa para tropeçar. Mas aquele amor... aquele que sentia agora por aquela criança era supremo, era recíproco na mais verdadeira das purezas. Reconfortava-se naquele sentimento, do mesmo jeito que a gente se ajeita no travesseiro quando vai dormir cansado. Daria sua vida, sem titubear, para que aquela criança jamais duvidasse de que era amada.
Achou que jamais sentiria aquilo por outra pessoa, até nascer o segundo, outro menino. Daquele momento em diante, entendeu o amor que tantas vezes questionou que não poderia ser dividido com sua irmã. Era um êxtase tal, que não cabia nela mesma, olhava para aquelas duas pessoas tão dependentes dela, e sabia sem ter duvidas o motivo de estar viva e a razão de ter que continuar vivendo. E queria continuar, como queria...
Tudo na sua vida entrou no eixo, entendeu seus pais, seus avós, sua irmã, seu marido e mesmo que não quisesse, passou a entender, mesmo que sem saber explicar ou ensinar, o amor. Era impossível não ter descoberto esse mistério tão curioso. E ela descobriu. Descobriu, entendeu e sorriu.
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SAMANTHA ABREU

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