sábado, 5 de fevereiro de 2005

PRA ENSINAR LITERATURA

Ela sempre sonhara com aquele emprego. Desde que se formara professora, não sabia como seguir o caminho que havia trilhado nos seus próprios sonhos. Há alguns anos ambicionava aquela escola. Lá, sabia que estavam os alunos mais brilhantes, os quais a vida tinha garantido oportunidades de se prepararem. Sabia que poderia se abrir para um mundo do qual nunca imaginou fazer parte.
Ensinar literatura era como ver o sol nascer. Para ela, era encantadora a rotina dessa vida tão próxima dos seus dedos. Vida tão desenhada, tão imaginada pelos contornos das telas onde estudava funções artísticas. Ela tinha aquela mania de ficar pensando na vida com os olhos parados no nada. Às vezes, parecia que estava dormindo de olhos abertos, e era nesses relâmpagos, que tinha os melhores sonhos. Eram nesses flashes que assistia à sua vida como se ela fosse um filme dos anos cinqüenta.
Por muitas vezes, sentia-se descontectada dos vínculos com a vida cotidiana e comum. Não tinha as mesmas intenções das mulheres de sua geração.
Não fazia parte dos seus sonhos, ser rainha de um lar, não tinha vontade de servir um marido. Queria pensar, dizer, queria ter seus próprios instintos sem precisar esconde-los, ter seus próprios trabalhos.
Estava tão feliz por se imaginar ensinando à pessoas tão sedentas de conhecimento, que, não conseguia deixar de ser até um pouco soberba, arrogante. Estava reluzente, estava brilhando, e seus olhos, não escondiam tal êxtase. Seria esse o fio de luz que deixaria entrar na vida daquelas pessoas. Entrar para nunca mais sair. Queria mudar o interior e o pensamento daqueles arquétipos sociais. Estava fascinada. Seria realizador, grandioso.
Partiria naquele fim de semana e iria com seu próprio carro. Na verdade, adoraria colocar na cabeça um lenço de bolinhas, com as pontas compridas a se baterem no vento. Igualzinho aos filmes.
Mas que engraçado, de repente se lembrar que a escola era na sua cidade, e não precisaria partir. Ah! Como amava literatura! Como se realizava na criação daquelas histórias, daquelas descrições psicológicas que ninguém jamais imaginaria, com exceção de Clarice Lispector e Virginia Woolf, ao olhar para outra pessoa. Entretanto, por mais segredo que isso fosse, os livros denunciavam, eram cruéis como fofoqueiras, despiam almas, arrancavam armaduras.
Pronto! Achara sua principal tarefa: fazer com que aquelas
pessoas aprendessem com os livros a ver almas, ouvir suspiros e a enxergar feridas.
Faria isso, de forma mais que prazerosa. Faria da forma que nunca pudera em prática: faria vivendo. Aprendendo a ler a vida e ensinando a aprender.
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SAMANTHA ABREU

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