segunda-feira, 4 de abril de 2005

Uma História que não se inventa !

Eram duas crianças terríveis. Os tios, avós e amigos não suportavam a convivência por muitas horas, eles tiravam as pessoas de sua estabilidade emocional. Até as mães, de quem se espera paciência, compreensão e carinho, perdiam as estribeiras após algumas tentativas de controlá-los.
Ela era uma menina esperta ao extremo, em comparação com as outras de sua idade. Tinha cara de sapeca. Os cabelos eram vermelhos daqueles que só existem nas propagandas e embalagens de coloração artificial. Era de causar inveja em muita mulher que sonhava ser ruiva. A pele parecia de uma gatinha. Era branca e toda salpicada de manchinhas quase da cor do cabelo. Era marcante. Tinha um sorriso angelical a ponto de colocar em dúvida qualquer menção de que parecia ser ligada na tomada em 220 volts
Já ele era o oposto. O cabelo preto que chegava a ser azulado, a pele, apensar de branca, era bronzeada, o que entrava em incrível contraste com seus olhos quase transparentes de tão azuis. Era uma combinação explosiva, e qualquer um que olhasse para ele com uma visão um pouco mais futurista, não tinha dúvida que seria um homem extremamente belo.
Conheceram-se nos primeiros anos escolares, e de pronto, os temperamentos fortes e opostos se chocaram. Odiavam-se.
Ela gostava de um dos coleguinhas da sala, e ele pra irritá-la fazia piadas e gritava pela escola que eram “namoradinhos”. Ela tentava bater, morder, chorava de raiva só em vê-lo.
A mãe tirou a garota da escola, depois de três anos de sofrimento e conversas com as professoras. Tentaram separá-los de classe, proibiram provocações e brigas, mas de nada adiantou. Passaram a estudar em escolas diferentes.
Os anos passaram, e reencontraram-se no colegial. Ela já mocinha, se tornara uma garota atuante, de personalidade forte e marcava presença em qualquer lugar onde aparecesse. Ele, como já previsto, estava um garoto, ainda adolescente, de deixar qualquer outra menina apaixonada. Era bonito, simpático e tinha uma lábia para mulheres que o fazia ser muito paparicado por todas.
Ela o reconheceu de imediato, logo no primeiro dia de aula, e que por motivos que somente o universo explica, caíram na mesma sala. Ele lembrou-se dela, mas não deu importância. Só começou de fato a notá-la quando sua presença e destaque entre os colegas começaram a incomodá-lo. Ela era autêntica, risonha, e por tantos outras razões, todos a adoravam. Mas ele, era o único a quem ela tratava com um tipo de indiferença quase fundida ao desprezo. E como aquilo o incomodava... Tinha vontade de conhecê-la, estar perto dela, fazer parte dos assuntos os quais ela conversava. Mas ela ainda guardava as péssimas lembranças da infância, e da raiva que já havia vivenciado por causa dele. Agia como se ele não existisse.
Na festa de formatura, ela, lá do meio de todo mundo, o observava com curiosidade. Ele estava sentado sozinho em uma mesa lá no fundo do salão, e tomava seu primeiro porre, que seria lembrado eternamente. Bebia por causa dela e de tanta vontade dançar com ela, de conversar bobagens que a fizesse sorrir, sorrir como nenhuma outra garota sabia. Mas foi naquela festa que ela arrumou o primeiro namorado. Um rapaz no qual todos apostavam ser o príncipe encantado. Fazia dela uma princesa, a tratava como se fosse a única no mundo, c
oncordava com tudo o que ela dizia, ria de todas as piadas, e nunca se atrevia a desafiá-la em uma conversa. O namorado que todas sonhavam.
O tempo passou, nunca mais se viram depois daquela festa, até já estarem adultos. Ela cursava Física na universidade. Era muito inteligente, tinha um raciocínio lógico de deixar professores de cabelos em pé. Era exata, precisa em qualquer cálculo, duvidava de tudo o que fosse humano e filosófico. Era uma mulher centrada, esperta, e de uma beleza sensual e imponente. Ele estava terminando o curso de Sociologia. Era reflexivo, um pensador. Tinha divagações sobre a existência do homem e sua função do mundo. Tentava achar explicações para qualquer teoria prática.
Em um churrasco de universitários, encontraram-se. E por mais incrível que não pareça, entraram em choque. Ele estava misterioso, com ar de sabedoria e conhecimento. Ela, com cara de mulher fatal, extrovertida e simpática. Haviam se tornado adultos, e já mal se lembravam das rixas do passado. Olharam-se durante quase toda a festa, e por dentro, se matavam de vontade de se aproximarem.
Ele, após rondar por horas a roda de amigos onde ela estava, fingiu esbarrar. Desculpa! Olho no olho, sorrisinho sem graça. Imagina, por nada! E daí... tudo começou.
Conversaram por horas e horas, contaram de namorados, desejos, sonhos, planos. E no ar, aquele cheiro de vontade se agarrarem em um canto qualquer da festa. Aquela vontade de acreditar que tudo havia sido planejado pelo destino e que ali, após toda sua história juntos-separados, o universo havia conspirado à seu favor.
Não se desgrudaram mais. Eram gêmeos, eram amigos, eram amantes, eram companheiros. Qualquer um que os observasse brigar, conversar, brincar, beijar, morreria de inveja. As pessoas que os conheciam individualmente, não achavam explicação para tal relação dar tão certo. Pessoas tão diferentes, em lados tão opostos e que se atraíam tanto ao encontro um do outro.
Não é necessário dizer que se amaram a vida toda, que casaram, tiveram filhos... aliás, um casal de filhos, que eram reflexos dos pais. A menina sardenta e brava, o menino de olhos azuis e atrapalhado.
Essa é uma daquelas histórias raras, que acontecem uma vez a cada mil voltas que a terra dá sobre ela mesma. Uma daquelas histórias, que a gente fica imaginando, sonhando e pedindo que aconteça com a gente, e como infelizmente muitas vezes não acontece, ficamos contando para as outras pessoas. Relatando, excluindo alguns fatos, inventado outros, como se a historia fosse nossa.
Como se fosse escrita e vivida por nós.... assim como estou fazendo agora!
SAMANTHA ABREU

Um comentário:

Anônimo disse...

Estou com muiiita saudade....

saudade de você, da sua risada, do seu cheiro.

Sabe a falta que me faz?????

Te adoro