sábado, 21 de maio de 2005

De repente... tudo

Tão de repente, mas daquele jeito tão de repente que na hora a gente não percebe. Ela sentiu mesmo foi depois, quando ele já estava de costas, e tão longe que parecia mínimo em relação a ela e o tamanho da dor que sentia. Ela pensava, e chegava mesmo à conclusão, de que o que mais doía nem era a falta ‘dele’, e sim o vazio que a ausência de alguém lhe traria agora. Sabia como sofria quando estava sozinha e como a solidão era uma doença quase incurável. Ela ficou parada naquele lugar, por tanto tempo que o céu estava cada vez mais castanho, e por ironia, estava uma visão linda naquele lugar lá distante, onde o céu acabava se misturando com as águas paradas do mar, que naquela hora, também ia escurecendo. Durante todo esse tempo, ela lembrou de coisas já tão cicatrizadas, tão secas e mortas dentro do peito. Lembrou da infância, da falta que sentia do pai, e de como se sentia inútil em comparação aos irmãos sempre tão bem colocados, tão influentes.
Meu Deus, que horas devem ser! Olhou para o pulso, mas o relógio não estava lá. Não conseguia mexer os pés, eles pareciam grudados no chão, esperando que ele, lá de longe virasse e fosse, passo-a-passo, voltando ao seu encontro, olhando dentro dela, como sempre fazia.
Os dois sempre foram ligados por uma coisa que às vezes se torna tão difícil compreender. Ele tinha por ela um carinho de sangue, sabia das fraquezas, das incapacidades e das carências. Ele olhava para ela, com os olhos entrando em sua alma, de um jeito que ninguém mais sabia. Em questão de segundos matava todos os monstros que ela levava anos, e até a vida toda se ele não aparece, para conseguir encarar.
Naquele momento, quando ela deu-se conta de que ele realmente não ia virar para trás e voltar, a dor começou a aumentar e tomar conta de todos os seus músculos. Câimbras subiam por suas pernas e o coração, parecia que, por conta de alguma técnica oriental, ia explodir se ela tentasse dar um único passo. O lugar estava vazio, e mesmo que algum infeliz a estivesse observando teria medo de se aproximar, a não ser que reconhecesse aquele ato insano de tentar livra-se de si mesma em que ela estava. Lágrimas caiam como sangue, caiam poucas, doloridas e carregadas de amargura e desespero. O choro era mudo, daqueles que as salivas parecem descer a garganta para se transformarem em lágrimas e a vontade gritar é abafada pela imensa dor no tórax.
Ela soluçou, virou a cabeça e viu, a alguns passos uma criança brincando na areia. Parecia ter surgido do nada, da sua cabeça talvez. Para aquela criança, parecia que nada mais no mundo tinha importância a não ser o ato de realizar, de construir. Ela pensava em quantas pessoas não achariam linda aquela cena: a tarde caindo e uma criança brincando como se nada mais existisse no mundo, além de sua obra na areia da praia.
Por alguns minutos ela esquecia da dor, e o mundo parava de girar para que ela olhasse aquela criança, e tentasse de algum jeito entender a si mesma. A maré subia e as ondas quase alcançavam seus pés. As ondas vinham como se pedissem abrigo, como se fossem muito infelizes por despertarem tanto medo. A criança continuava lá, as admirando, como se elas fossem símbolo de força... prestes a derrubar seu castelo. Meu Deus, como as coisas são estranhas!
Ela parou os olhos nas ondas. Parecia que já nem se lembrava mais dele. Quem era ele para ter tanto domínio sobre ela, sobre os medos dela, sobre o que ela havia se tornado? Pedia às ondas que o levassem para bem longe. Pedia às ondas que o mantivesse distante, ele, todo o domínio e toda a idéia que ela tinha de que ele a fazia melhor. Não queria mais precisar de alguém para ser melhor. Queria ser como aquela criança, inatingível, satisfeita de si.
Respirou fundo e assoprou em direção ao mar tudo o que a corroía.
Saiu dali com lágrimas nos olhos, que já brilhavam diferentes. Agora conseguia andar, devagar.
Deu um sorriso meigo e agradecido ao menino, dono do castelo. Aquele sorriso que a gente dá quando tem vontade chorar... mas o nó na garganta já parecia afrouxar e ela passava a sentir menos dor no peito.
Sabia que não seria fácil ser sozinha, mas ela queria agora. Seria apenas ela, o menino dono do castelo, e o mar.
Das ondas ela ainda tinha um pouco de medo...
Samantha Abreu

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