segunda-feira, 6 de junho de 2005

Reencontro

Era a manhã mais linda da qual se tinha notícia. As pessoas contam que o céu estava tão azul e olhando fixo, na verdade parecia não ter cor, ou talvez aquela seria a cor do infinito. O sol entrava no quarto de um jeito a deixar todo o ambiente dourado, pareciam cenas de comercial de televisão, era fascinante de se ver. O bater de asas dos passarinhos se confundia com aquele barulho que a gente escuta no coração quando a ansiedade parece explodir as artérias. Ela exatamente isso que ela estava sentindo.
Ainda na cama, enrolada nos lençóis brancos, mas tão brancos que chegavam machucar os olhos sob a luz do sol, ela molhava o travesseiro em lágrimas. Tinha se deitado na noite passada daquele mesmo jeito, com aquela mesma angústia, a mesma tristeza mas uma decisão definitiva e irremediável. O desânimo havia tomado conta do seu corpo, principalmente por não ver mais naquela casa um único motivo para levantar da cama. Não havia bagunça para arrumar, não tinha louça para lavar, nem comida para fazer. Ninguém além dela se alimentava ali.
A beleza do lugar, da imagem daquele quarto era poluída por tamanha tristeza. Desde que ele se fora, ela estava deitada. Demitiu a faxineira e pediu que ela levasse o cachorro, sempre tão paparicado e tratado como a criança da casa. Como fazia falta uma criança naquela casa agora. Tantas vezes ele havia lhe pedido um filho, e ela sempre esperando o momento certo. No entanto, o momento certo lhe passou pelos olhos como uma brisa, intocável e invisível.
O silêncio era dolorido. Entrava na alma como uma pontada de grito agudo bem perto do ouvido. Aquele silêncio parecia deixá-la ainda mais sozinha. O telefone cansava de tocar, fazendo um eco estrondoso na sala, mas ela não tinha coragem de se levantar. Certamente seria mais alguém desocupado lhe perguntando sobre seu estado, sobre sua saúde, sobre seu sofrimento. Seria, sem dúvida, mais uma das pessoas que de um jeito maquiavélico adoravam saborear o sentimento de dor das outras pessoas, e neste caso, seria o dela.
Aquela dor ela não desejava a ninguém, embora por muitas vezes, parecia ter raiva do mundo, das pessoas, de Deus, da vida. Ainda assim, não estava presente nela aquele sentimento cruel de sentir prazer ao ver o rosto de alguém desfigurar em uma crise insuportável de dor.
A crise de dor que ela sentia era, tão irônica ao próprio nome, interminável. Já havia se passado um mês do acidente, e ela ainda sentia a dor de quem não havia estado presente para morrer junto com ele e não sentir mais nada naquele momento. Não queria sentir mais nada naquele momento, assim como ele que deveria estar sabe-se lá onde.
Ela começou a se lembrar de uma história de sua infância, sobre um casal de velhinhos vizinhos da casa onde seus pais moravam, e que já estavam juntos a quase sessenta anos. Contavam-lhe, ou às vezes ouvia a história entre as rodas de adultos, que ele morreu por conta da idade avançada e de uma saúde já frágil. O mais triste era que a mulher, alguns dias depois também se entregara à morte por conta da tamanha tristeza e solidão que lhe restara. Ela, com um sorriso um pouco sarcástico nos lábios amassados pelo travesseiro, se lembrava de como, na sua ingênua infantilidade, tinha medo dessa história. Lembrava-se das crianças um pouco mais velhas que usavam essa história para assustar os pequenos, dizendo sempre que o velhinho depois de morto viera buscar sua companheira durante a madrugada, e depois disso, o casal de fantasmas voltava para levar todos que se apaixonassem a ponto de serem inseparáveis.
Quanta inocência, meu Deus! Ela se lembrava ainda que por alguns anos de sua adolescência havia escondido duramente até das amigas, os amores platônicos que sentia pelos garotos de sua idade por medo de que o casal de velhinhos descobrisse...
E não se lembrava no meio desse caminho até se tornar mulher, como havia esquecido dessa história e se entregado ao amor daquele homem. Foi uma paixão tão surpreendente quanto avassaladora. Vê-lo, a fazia se sentir frágil, e foi extremamente fácil se entregar. Em poucos meses, estavam casados e inseparáveis, assim como o casal de velhinhos do qual ela nem se lembrava mais.
Tantas vezes ela sofria com o ciúme que sentia daquele amor. Não tinha ciúme dele com outras mulheres, pois ele jamais lhe dera motivos para pensar que poderia ser traída. Mas tinha um medo enorme de que ele a obrigasse a dividí-lo com outra pessoa. Sabia que inconscientemente o fizera se afastar da família, dos amigos e de tantas pessoas que eram, juntamente com ela, alvo para atenção dele. Os filhos os quais ele tantas vezes planejara, jamais eram concebidos porque ela, secretamente, tomava pílulas para que não engravidasse e uma criança viesse a ocupar o seu lugar.
Como havia sido egoísta, infantil e mesquinha! Como podia suportar ver o homem a quem tanto amava, sofrer a cada exame de gravidez negativo, e hoje, na situação em que se encontrava, não entender o masoquismo de pessoas que pareciam gostar de lhe ver sofrer, de lhe ver destruída pela solidão, pela saudade.
Seu marido, seu amor, sua parte descolada da alma morrera sem realizar o desejo de ter um filho. A culpa era dela, só dela.
As lágrimas caíam doloridas no travesseiro, e manchava de sangue a fronha branca. A cabeça parecia estar sendo arrancada do corpo e pelo espelho frente à cama ela se olhava com ânsia, com nojo de si mesma, com asco do tipo de sentimento que dominava seu corpo. Olhava-se no espelho, e o sangue já encharcava toda a cama. Os braços esticados no lençol, já não tinham mais salvação. Ela não estava mais ali. Apenas ele, a imagem dele lhe vinha à mente. Ao longe ele aparecia caminhando de braços dados com duas pessoas já conhecidas, de aparência familiar. Duas pessoas que fizeram parte das histórias horripilantes da sua infância.
Ela queria entregar-se àquelas pessoas, queria caminhar ao lado delas, queria abraçá-lo como a tempos não fazia e lhe pedir tantas desculpas. Tentou levantar os braços para alcançá-lo mas não tinha mais forças, o sangue escorria pelo cotovelo.
Ela fechou os olhos, não sentia mais nada.
Respirou pela última vez, e esperou que ele se aproximasse.
SAMANTHA ABREU

Um comentário:

Anônimo disse...

Tadinha... ela morreu?
de amor ou de remorso... ou de saudade? ou de tristeza?
nossa que história triste...
quase chorei..
essa é linda messsmo!

beijinho sá

Bya