domingo, 24 de julho de 2005

Ela me traiu com Chico Buarque

Gente, eu encontrei essa Crônica naquele site que sempre menciono: Cronistas.com.br, e sinceramente: Amei!
Por isso, resolvi colocá-la aqui, espero mesmo que o cara não se importe! rsrsrsrsrsrs
Senhores, o que eu tenho feito com os poetas brasileiros e com suas poesias é digno de ação penal pública incondicionada. Sim, eu confesso: tenho usurpado versos inteiros, venho modificando odes e sorvendo sonetos, mas faço isso tudo por amor e, se isso não descaracteriza o crime há de, pelo menos, atenuá-lo.
Este meu reprovável comportamento se deve ao amor e também à premente necessidade de tocar o coração feminino com palavras para depois poder tocar todo o resto do corpo das amadas. É como eu sempre digo: os fins justificam os meios!
Sim, eu sou um homem que ama. Desculpem-me se essa revelação desaponta aqueles que acreditam que eu só consigo amar meu time de futebol mas, acreditem, eu sou capaz de amar algo diferente do Clube Atlético Paranaense e já amei, e tanto, que mesmo em face do maior encanto meus amores foram eternos enquanto duraram.
Um desses amores (que tive) ocorreu em 1995, ano, aliás, que marcou a recuperação futebolística do meu querido Atlético Paranaense. Lembro-me muito bem dela (refiro-me a minha namorada da época e não à recuperação do Atlético). Pois eu ia falando dela e logo fiquei pálido de espanto. Era linda a minha namorada: alta, loira, grandes olhos verdes e uma boca carnuda acolhendo dentes (todos os 32!) capazes de morder minha carne, às vezes por paixão, freqüentemente por raiva. Ah, aquela mulher tão doce e tão selvagem, quem diria, gostava de poesia. E eu haveria de ser seu poeta, não exatamente por vocação, mas por medo de que ela viesse a me morder aquela carne menos tenra, o que me faria, certamente, ver e ouvir estrelas, direi.
Então, para agradá-la, comecei a fazer versos de minha própria lavra, o que me rendeu quase dois sonetos, ou seja: apenas dois bilhetinhos para ela. Mas ela queria mais e, para me inspirar, começou a me mandar bilhetes cheios de versos que, para a minha surpresa, eram realmente muito bons.
Num desses bilhetinhos dela, estava escrito: "Quero ficar no teu corpo feito tatuagem que é pra te dar coragem de seguir viagem quando a noite vem...". Li o bilhete e estremeci de paixão: ela queria ficar no meu corpo feito tatuagem! Vocês imaginam lá o que é isso? Tatuagem é para a vida toda, não é coisa passageira, não! Agora, mais do que nunca, eu estava apaixonado por ela, afinal ela era linda e era poetisa. Guardei aquele bilhete como quem guarda algo muito precioso, debaixo de sete chaves, dentro do coração.
E foram meses e meses de troca de cartinhas, nas quais promovi parcerias literárias insólitas e impensáveis. Houve bilhetes de Drummond e Rafael, de Olavo Bilac e Rafael, de Vinicius de Moraes e Rafael e, numa fase mais tensa, João Cabral de Melo Neto e Rafael escreveram: "Nosso amor é como um rio, onde correm cicatrizes, mas o amor, na água do rio, lentamente, vai se perdendo em lama, numa lama que pouco a pouco também não pode falar e, assim, nós calamos e nosso amor emudece".
Ela leu essa carta e replicou, emocionada: "Meu amor, você não sabe como eu estou sofrendo, como é difícil acordar calada, se na calada da noite eu me dano, quero lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutada, esse silêncio todo me atordoa"!
Trepliquei à altura e, associando-me ao Drummond, mandei a ela um bilhete que dizia: "Não quero esse teu silêncio, por isso eu preparo uma canção em que você se reconheça, em que você enfim se reconheça e que, afastando o silêncio, fale como dois olhos".
E após tanta troca de cartinhas ela me deu um fora tão grande que poesia nenhuma foi capaz de dar jeito! Acabei me conformando e me restava o consolo de, pelo menos, não ter sido descoberto nos meus plágios, por ela. Outro consolo que me restava eram aqueles bilhetes lindos que ela me escrevia durante o namoro. Num desses bilhetes, ela disse: "Vem meu menino vadio, vem sem mentir pra você, vem, mas vem sem fantasia que da noite pro dia você não vai crescer... não evite meu amor, meus convites... vem perder-te em meus braços, pelo amor de Deus...vem que eu te quero todo meu"! E desse bilhete eu gostava, em especial. "Vem perder-te em meus braços", eu repetia me lembrando das tantas vezes em que tinha me perdido nos braços dela, pelo amor de Deus!
Mas, como eu disse no início desta crônica, tudo isso aconteceu em 1995. Muito tempo se passou até que, em 1999, eu entrei numa loja de cd´s e comprei uma coletânea do Chico Buarque que até então, para mim, só cantava "A Banda" e "Brejo da Cruz".
Cheguei em casa, coloquei o cd para tocar e o Chico, logo de cara, atacou um "Samba de Orly". Fiquei admirado. Mas admiração mesmo viria na faixa seguinte quando a Maria Bethânia sapecou um "Sem Fantasia" que, coincidentemente, tinha a mesma letra de um dos bilhetes da minha ex-namorada. Dali por diante as coincidências literárias se arrastaram até a última faixa que, sugestivamente, chamava-se "Cálice".
Quatro anos depois eu soube - fui o último a saber, mas soube - que ela, quando me escrevia, me traía com o Chico Buarque!
É verdade que eu bem que merecia, afinal minhas cartinhas para ela misturavam versos meus com versos de outros tantos poetas (sentiram a minha modéstia?), mas eu tinha feito aquilo tudo por amor e por ela. E ela? Teria feito por amor, por mim ou por falta de idéias e inspiração?
Eu nunca soube a verdade. O fato é que eu estava a morrer do meu próprio veneno (não era assim que o tal Chico Buarque dizia? Pois é...).
Naquela noite, eu fiquei sentado, no meio da sala, ouvindo todo aquele cd e rasgando todos os bilhetes dela e do Chico Buarque, até o fim!
Hoje, felizmente, eu conheço todas as músicas do Chico. Hoje eu já não produzo aquelas parcerias literárias insólitas do passado e só escrevo coisas da minha própria autoria. Enfim aprendi que o plágio é uma pedra no meio do caminho, e como eu plagiava muito, sempre tinha uma pedra no meio do meu caminho, no meio do caminho sempre tinha uma pedra. Posso dizer que aprendi a lição! Traí e fui traído, mas dela não tenho raiva. Foi um tempo bom, ela foi um pedaço de mim e a saudade dói como um barco que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais. Mas, meu caro amigo, vai passar!



Rafael Fonseca Lemos, Professor – Curitiba/PR

4 comentários:

Anônimo disse...

eu te amo.... tanto!

Anônimo disse...

Sabe aqele dia...? descobri uma coisa:
"como pode uma criatura, senão entre outras criaturas... amar?"

lembra dessa né...?

Tô te esperando ainda....

Anônimo disse...

Vc não tá escrevendo mais não, mocinha?
Amo suas "coisas"
E o concurso? Já foi "super vencedora"?
torço tanto por você...
Te AMOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO...

Sabe o que escuto e lembro de vc?
Olha:

"Meu bem... faz tantas luas que te espero...
pirraça é coisa de criança,
vamos deixar de lero-lero..."

Meu pai quese morreu de rir.. isso é coisa do Erasmo! kkk
Olha o que vc faz comigo.. um "garoto do rock"...!
Te amo de novo!

Anônimo disse...

É muito legal esse texto!!!!!!!
Também gostei muito!!!!!!!!!