quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Nuvem Cinza

Era tudo tão colorido naquele lugar que por alguns minutos, ela esqueceu da nuvem cinza que parecia estar parada sobre sua cabeça. O contraste daquelas cores tão fortes fazia com que a vista parecesse uma paisagem pintada em uma tela de forma admirável, por mãos tão isentas de dores e sentimentos ruins.
O azul do céu estava tão intenso que nem parecia azul, parecia mais uma cor infinita. Ela nem sabia por que achava isso, se ninguém nunca havia lhe dito de que cor era o infinito. Lá na frente, bem longe, ia ficando um azul mais claro, fazendo um degrade maravilhoso até se tornar água. A água do mar estava parada. Sem ondas. Tranqüila como estavam agora sua alma e suas idéias ao observar aquele quadro à sua frente. Tinha os olhos arregalados, mas neles não se viam lágrimas já que não lhe era de hábito chorar. Odiava que vissem seus olhos vermelhos. Ela sempre afogava o choro com salivas amargas e o amarrava com aquele nó na garganta. Já nem se lembrava como tinha ido parar ali, mas não tinha dúvidas de que jamais esqueceria o que havia escutado da boca de sua mãe.
Não gostava de falar de sentimentos, sempre trancava tudo bem dentro do peito para que ninguém sequer desconfiasse de seu ponto fraco, do rancor e da mágoa que sentia daquela mulher; e de como aquele sentimento tomava conta dela de forma dominadora e a deixava incapaz de viver, de buscar felicidade. Evitava pensar que era essa, certamente, sua fraqueza maior dentre tão poucas que temia. Era uma dor capaz de derrubá-la. Uma ferida tão dolorida como corte de navalha na ponta do dedo que a gente mais usa, e que sempre machuca de novo quando está quase cicatrizando.
Desde criança, sempre que tentava sozinha achar uma explicação para a relação com a mãe, tudo lhe parecia ainda mais confuso. Às vezes, era apedrejada por pessoas que achavam suas atitudes incondizentes com a posição de filha, e isso a deixava ainda mais ressentida. Não sabia como demonstrar aquela amargura e por isso, acabava refletindo em seus atos uma revolta sem causa. As pessoas, baseadas em padrões familiares de hierarquia, não admitiam que o sentimento dela pela mãe fosse tão anti-convencional. Não compreendiam talvez, pois não viam as razões e os fundamentos daquela tristeza.
Sua mãe é quem era anti-convencional, relapsa, irresponsável. Várias vezes ela tentava procurar uma explicação psicológica para sua mãe ser daquele jeito, tão diferente das outras, tão imaterna. Pensava na infelicidade que deveria tomar o coração daquela mulher, frustrada por não ter podido viver sem limites por conta das filhas. Estava certa que nela e na irmã estavam a culpa que a mãe colocava por ter sido podada de juventude.
Ela não queria aquela culpa sobre si, queria aquela nuvem bem longe para que não a molhasse com tantos pingos ardentes de mágoa e rancor. Não mais. Aquilo a havia atingido durante parte da infância e toda a adolescência, mas agora não queria mais.
Neste momento, perdida em reflexões, ela parecia muito perto daquele lugar onde o azul do céu estava clareando e virando água parada...Começava agora a ver peixes coloridos, mas o ar lhe faltava. Os peixes respiravam e ela não. As algas eram de um verde esplendoroso em contraste com o azul escuro da água do fundo.
De repente, tudo começou a ficar cinza de novo. Cinza da cor daquela nuvem. O desespero passou a tomar conta do seu corpo, já que não tinha mais onde esconder-se daquela maldita mancha cinza que a perseguia até debaixo d’água. Estava tudo ficando cinza e ela não conseguia respirar como os peixes coloridos.
Fechou os olhos para não ver a nuvem cinza. Fechou e também já não viu mais os peixes coloridos. A água continuou parada sob a chuva da nuvem cinza que se dissipava.
O ar lhe faltava na garganta, as forças lhe custavam ao corpo, mas na cabeça continuava a lembrança da mãe. Ainda perguntava-se porque nunca havia existido uma trégua entre elas para que de repente, uma das duas decidisse ser diferente. Sentia um fundo de arrependimento por talvez não ter feito algo para tentar construir uma relação diferente. Tudo isso passava pela sua cabeça em questão de minutos. Aqueles três minutos que temos antes e cairmos em total, e muitas vezes conveniente, inconsciência. O que ela queria era apenas a inconsciência, nada mais que isso. Não queria morrer, de fato. Queria apenas aquele estado mórbido entre estar vivo e não fazer parte, nem saber nada sobre o mundo à sua volta.
Mas era tarde demais. A velha e conhecida companheira cinza estava agora definitivamente parada sobre sua cabeça. As algas enrolavam-se em suas pernas puxando-a para cada vez mais fundo. Os peixes coloridos a observavam com um sádico prazer. De olhos parados, a observavam e mandavam beijos.



Samantha Abreu

Um comentário:

Anônimo disse...

Immigration debate stirs up strong arguments
How should America handle the estimated 11 million illegal immigrants who live within our borders? "Deport them all," numerous Beyond Borders readers write.
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