sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Ana - Capítulo II


Capítulo II - Como dar-se conta...

Ana caiu em si, e notou-se parada estática na calçada frente ao consultório médico. Olhou mais uma vez para os lados e atravessou a rua. Sentou sozinha na pequena mesa de um aconchegante café ali na mesma rua e respirou fundo. Reparou na decoração do bar, dando uma impressão familiar e simples ao local. Os quadros eram pintados em tons claros, e davam maravilhosa tranquilidade. As cadeiras eram estofadas com almofadas e tecidos macios, fazendo com que as costas ficassem incrivelmente encaixadas e confortáveis. Era um lugar muito simpático. POr um segundo, imaginou como o ar daquele ambiente tão gostoso estava sendo recebido pelo câncer em seu pulmão.Que besteira! Isso lá tinha importância agora?
Devagar, tentou organizar os pensamentos. Pediu um café forte com bastente creme e açúcar. Começou a lembrar de tantas pessoas que conhecia, e que tinham sofrido nas garras dessa doença. Alguns já haviam morrido e outros, continuavam sofrendo.
Sozinha, ensaiou mais de dez vezes como iria contar ao marido. Como explicaria à Carlos, ou pior, como explicaria um assunto tão sério e delicado ao filho? Vítor tinha acabado de completar 9 anos e a festa tinha sido tão animada... E a mãe? Já estava com uma idade avançada e não aceitaria perder a filha caçula, a quem sempre paparicava e defendia, causando até mesmo briga entre ela e suas outras duas irmãs.
Pensou. Decidiu não contar. Esconderia pelo menos até que não pudesse mais evitar frente aos sintomas inevitáveis e assim, faria com que todos se acostumassem com o princípio de sua morte.
Ficou com os olhos parados no nada, do mesmo jeito que sempre ficava quando estava muito nevosa ou passando mal. Mas naquele momento nada disso estava acontecendo. Ela estava apenas pensando. Lembrou-se das duas piores notícias que havia recebido na vida: a gravidez e a doença. A primeira, no fervor de seus dezoito anos, lhe deixara desnorteada e pensando em suicídio. Já a segunda, lhe causava desespero ao pensar na morte. Se ao menos, a notícia dessa doença lhe pudesse trazer metade da alegria que a primeira trouxera... ela seria a mulher mais feliz do mundo. Até deixou escapar um sorriso de canto ao lembrar do filho, tão pequenino em seus braços inexperientes. Na época, garota solteira, de pai rígido, até teria desejado o cancês ao invés de um filho. Teve uma certa noção de como aquela criança havia transformado sua vida. Casou-se, transformou-se em mulher, com preocupações e afazeres se mão de família, e não mais de menina. Com a mão segurando o queixo, sentia tanto frescor e calma que por alguns minutos até se esqueceu do gosto da morte na boca. Com a outra mão, começou a escrever em um guardanapo de papel, rabiscando: Morte, Morte, Morte. - Como é fácil escrever essa palavra! Em outra mesa, um homem calvo e grisalho a observava atento.
Para qualquer um que a observasse naquela situação, passava a impressão de ser uma mulher triste e que estava sofrendo por amor, ou uma paixão qualquer.
Às vezes, com a mão ainda no queixo, levantava a cabeça e olhava o nada, soltando um suspiro aliviante. Já estava mais calma e não queria sair dali.


Samantha

Um comentário:

Anderson Almeida disse...

Já achei uma característica importante, no meu ponto de vista para uma grande escritora, que é a precisão nos detalhes. Adoro isso, me lembra Kafka o minucioso e detalhista.
Beijos...