segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Ana - Capítulo III

O anjo samurai
Ana deu-se conta que já havia se passado algumas horas, estava quase anoitecendo, e ela ainda estava ali no bar... parada.
Ela estava pensando em se levantar quando o velho que a observada aproximou-se. Ele chagou tão perto que ela pode sentir o cheiro de roupa guardada, roupa com cheiro de coisa antiga, parecido com aquele que sai do armário quando o abrimos depois de dias de chuva trancado. Abaixou os olhos e procurou nao olhar para ele. Estava constrangida com tal contato daquele desconhecido, mas ainda assim, não parava de pensar que Vítor nao podia ir mal na escola, e além disso, sempre fora um garoto interessado e estudioso.
De repente, o homem colocou a mão na mesa. - Senhora? Tudo bem?
Lentamente, ela virou os olhos na direção dele, como quando a gente acorda de manhã, tentando assimilar todas as informações do que está vendo com o que está pensando. Permaneceu muda, apenas fitando-o. Seu rosto era marcado, a pele com muitas rugas e a barba mal feita que dava um ar pesado e uma impressão de abandono à sua aparência. - Meu Deus! Esse homem não tem ninguém!
- Estou bem, obrigada. Apenas um pouco de dor de cabeça.
- Filha, te vi sair da clínica transtornada, carregando os sapatos nas mãos. Fui visitar uma das infermeiras que cuidou da minha esposa. E você, por que estava lá? Algum parente doente?
Parente? Pensou ela. Não desejaria isso nem para uma de suas tias mais fofoqueiras da familia.
- Não senhor, nenhum parente. O problema é comigo. - A mão continuava no queixo acompanhando os movimentos que fazia com a cabeça.
O homem demonstrou uma mudança brusca de expressão. O olhar era de um sentimento reconfortante, de compadecimento, como de visse nela todo o sofrimento de sua esposa. - Ele deve estar com pena de mim! Coitada! Tão nova!
- A compania da morte pode ser recompensadora, disse ele.
Ela pasmou. Continuou olhando para ele tentando decifrar o que estava pretendendo com aquelas palavras. - Quem seria capaz de dizer uma coisa dessas?
- Filha, não estou falando bobagem. Minha esposa, depois de condenada a três míseros meses de vida, teria tanto pra contar do que se tivesse vivido dez anos. Ela viveu pouco, mas intensamente. A gente só se dá conta de que a morte de fato, existe inclusive pra nós, quando ela torna-se nossa companheira.
Ela não sabia o que responder, e não queria ouvir naquele momento um daqueles ensinamentos samurais ou instruções de livros de auto-ajuda. Como poderia viver em três meses, tudo que não veria em seu filho?
- O senhor é muito gentil. Mas para mim, tudo ainda está à flor da pele, parado aqui na garganta e não consigo ver com outros olhos a desgraça que essa doença vai causar na minha família.
O olhar do velho era tão receptivo que ela mal percebia que se abria à um estranho. Ele a acalentava com olhos de sossego, sossego de alma. Embora seu corpo de revirasse de ansiedade e a induzisse a levantar e sair correndo, ela tinha vontade de ficar ali, naquele bar aconchegante, vendo a paz nos olhos daquele homem, talvez mais velho que seu pai.
- Fique com Deus, menina. Saiba que a vida lhe ensina a saboreá-la, nem que seja por instantes, como uma sobremesa.
Segurou carinhosamente a sua mão, olhou mais uma vez para ela e saiu, colocando o chapéu que escondia seus cabelos quase completamente grisalhos.
Ana ficou extasiada. Não acreditava no que havia acabado de acontecer. Parecia uma daquelas cenas de filmes em que um anjo vem disfarçado trazer uma mensagem de Deus para quem está precisando. Ela ficou ali, sem saber se levantava da mesa, se ia embora ou se corria atrás do velho para conversarem mais e descobrir se ele era realmente um anjo.
Levou um susto e quase pulou da cadeira quando o celular tocou. Era Vítor, já tinha saído da escola e a esperava. Estava ansiosa pela primeira vez que veria o filho depois de saber que iria perdê-lo tão depressa.
Samantha

Um comentário:

Anderson Almeida disse...

O Anjo samurai foi o melhor subtitulo que ja vi! hahaha Fiquei pensando antes de ler, oque será um anjo samurai hahaha engraçado!
Mas, vamos la quero ver onde isso vai dar, to gostando!
Bjos...