terça-feira, 18 de abril de 2006

Alice no País das Poesias



Recebemos para a segunda aula do Dedic Escreve a poetisa e compositora Alice Ruiz. Não vou mentir aqui dizendo que sabia como ela era conhecida, como era destaque e etc. porque, na verdade, eu muito pouco conhecia ou até quase nada.
Pelo programa do concurso li um breve resumo sobre suas obras e atividades, e me identifiquei com algumas criações que eu já conhecia, mas não sabia da relação com ela.
Sempre gostei de Zeca Baleiro, já tinha ouvido falar muito de Itamar Assumpção e sabia que ela era esposa de Paulo Leminski, mas não imaginava o grau de cultura e conhecimento técnico sobre poesia que essa mulher traria pra gente hoje.
Deu-nos literalmente uma “aula” de como fazer, ler e entender uma poesia. Dava pra sentir nos seus olhos a paixão por aquilo que faz e muita sinceridade em dizer o que pensa.
Ela começou fazendo pra gente um apanhado geral de toda criação poética e de como chegamos onde estamos. Relacionou essa literatura com toda a mudança de relações que tivemos, fazendo com que as pessoas hoje tenham um acesso muito mais rápido às informações e criando vínculos virtuais entre si. Argumentou com isso que a poesia deve acompanhar tudo e o poeta deve dizer o que é atual, deve retratar o momento em que vive.
Falou sobre a poesia marginal e como essa deu, e ainda dá, aos criadores uma infinita liberdade de expressão e de formas por serem desvinculadas de exigências editoriais. Contou-nos sobre sua relação com a composição de letras musicais e de um jeito engraçado nos disse que, por muitas vezes, enlouquece os vizinhos escutando uma música já pronta por inúmeras vezes, até o dia inteiro, se necessário, para que possa ter idéias na criação da letra.
Contou toda sua experiência com o Zen – falou um pouco desse estilo de vida e sua relação com o Budismo, até chegar às explicações de como se preparar e criar um Hai Kai. Aliás, nos fez visualizar com facilidade e diferença entre o Hai Kai e nossa conhecida poesia. Disse que o Hai Kai é como uma fotografia em palavras e seu objeto é sempre a natureza.
Recitou, para nossa fascinação, um dos seus Hai Kais:

Rede ao vento
Se contorce de saudade
Sem você dentro

Ela nos relatou todo o inicio de seu contato – ainda na adolescência - com poesia e falta de identificação que ela sentia com o aprendizado nas escolas, apenas com poetas arcaicos e que já não viviam sua realidade. Durante toda essa divagação, passou pelo modernismo nos falando sobre a revolução através da poesia concreta e a mudança no cenário musical com a chegada do tropicalismo. A respeito da Poesia de Cordel, nos deu exemplos de excelentes retratos da nossa cultura e de como ela passeia entre a oralidade e a escrita. Deu vários exemplos de como a poesia alcançou liberdade em relação à rima e métricas, mas defendeu o fato de ainda ser de extrema necessidade para distinção de um poema, a existência de ritmo nas palavras.
Foi uma tarde muito agradável, e como se tornou inevitável, fizemos com que ela nos desse o prazer de recitar alguns poemas. Ela, com total desenvoltura, o fez. Mostrou-nos o seu “MILÁGRIMAS” e nos recitou também, não só em português como também em um belíssimo espanhol uma poesia de Jorge Luiz Borges, que em outro dia pretendo colocar aqui.
Vou deixar agora, como lembrança de um sentimento maravilhoso que me invadiu quando escutei o milagroso “Milágrimas”.
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Milágrimas
(Itamar Assumpção e Alice Ruiz)

Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre
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Um comentário:

Selma Caetano disse...

Samantha, querida
Você é nossa grande parceira em Londrina. Agradeço a sensibilidade com que você recebe os escritores e poetas na sua cidade. Não pude acompanhá-los e, com certeza, eles saíram ganhando.
Espero muitos textos seus para concorrer ao Dedic Escreve: poesia e prosa.
Na próxima terça-feira, você vai conhecer Marcelino Freire. Já aguardo por seu sensível texto no blog.
Um beijo grande
Selma Caetano
Consultora Literária
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Fones: 11 3331-9348 / 9656-5014