terça-feira, 25 de abril de 2006

Cultura feita à Pão e Vinho


Estou amando muito tudo isso. Hoje fui buscar no aeroporto o fascinante Marcelino Freire. Parece que pra ele a vida é uma festa que está acontecendo agora, uma festa rave de extrema velocidade. Foi muito divertido. Quando cheguei ao aeroporto, sozinha dessa vez, fiquei preocupada em reconhecê-lo, mas o que ocorreu foi o contrário. Ele me olhou e disse: “Samantha?”, eu quase surtei. Como é que ele poderia saber? Fiz uma brincadeira para saber por que cargas d’água ele sabia quem eu era, e ele me disse: “Eu vi uma foto sua no seu Blog”. Ah Meu Deus! Olhei pra ele fazendo um ar um pouco sacana e falei: “Então você já sabe que vou escrever sobre você, né?”. Ele, muitíssimo descontraído, brincou mostrando preocupação e disse que ia tomar muito cuidado com tudo o que me diria.
Fomos almoçar no mesmo lugar onde levamos o Marçal Aquino, minha gerente nos encontrou lá e pude notar mais alguns detalhes realmente encantadores naquele restaurante, como por exemplo, a pequena estante de livros e vinhos que me instigou a parar ali e ficar olhando. O problema foi que eu estava com um prato de bolo trufado na mão e, por isso, não pude fazê-lo. Na mesa, conversamos sobre todos os assuntos possíveis, daqueles que a gente conversa com pessoas que conhece há anos. Contei sobre meu trauma de infância em relação ao meu nome e de como os ‘moleques’ me tratavam com aquela crueldade pura que só criança consegue ter. Ele nos contou sobre o seu tão acompanhado ‘Marcelino pão e vinho’. As gargalhadas eram inevitáveis.
Quando começou a ministrar as aulas, já nos jogou de cara uma piada do tipo; “Não vou usar esse microfone, senão vou parecer a Ana Maria Braga”. Sabemos como as pessoas se empolgam quando encontram pela frente pessoas extrovertidas, que falam sem medir palavras e dão risada de si mesmas. Ele se mostrou uma dessas. Falou sobre toda sua experiência com mini e micro contos, de como podemos ‘enxugar’ os textos e deixar que o que não está dito seja entendido melhor do que o que está escrito. Deu exemplos intrigantes que nos faziam pensar “como eu não escrevi isso antes?”. Falou sobre sua vida como retirante do sertão pernambucano e de como descobriu a Literatura aos nove anos, lendo o poema “O Bicho”. O melhor de tudo é que ele nos contava essas histórias como se fosse um vizinho, um amigo ou uma cara que tínhamos conhecido tomando cerveja. Não parecia e não quis parecer em nenhum momento o que ele significava, de fato, pra nós que estávamos ali fascinados.
Leu trecho de suas obras, aliás, leu com uma paixão e vivacidade a ponto de nos deixar de queixos caídos. Lia as falas dos personagens como se tivesse encarnado aquele espírito e o sotaque nordestino, que normalmente se mostra tão diferente do nosso, parecia pra gente que era habitual e extremamente poético. Mostrou uma Literatura seca, real e extremamente forte. Falou diversas vezes, e fez questão de ser enfático, de como é importante não só escrevermos, mas principalmente reescrevermos. Mostrou muita preocupação com cada palavra usada em um texto e todo o significado que ela carrega. Mostrou como é vital que evitemos as ‘muletas’ de um texto, como os excessos de advérbios, adjetivos e expressões demodês (fiz questão de colocar essa palavra aqui, pois ela é um exemplo pragmático).
Quero mencionar uma das coisas que ele disse que eu concordo em todos os graus: “Literatura deve incomodar, deve nos dar um soco no estomago”. Isso pra mim foi demais. Eu sempre concordei com isso e, até por esse motivo, adoro filmes e livros com finais que me fazem sentir muito mais do que entender.
Nos deu exemplo de sua paixão pelo Micro conto, falando sobre seu primeiro contato com o autor guatemalteco Augusto Monterroso, que escreveu o menor texto do mundo:
“Quando acordou,
O dinossauro ainda estava lá.”
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Mostrou-nos alguns textos que fizeram parte da antologia organizada por ele “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”, e de como desafiou 100 escritores a fazerem um micro conto com até 50 letras – sem contar o título.
Vou colocar aqui alguns exemplos:
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“- Diz que me ama.
- Aí é mais caro.”
(Beto Villa)
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“-Fui me confessar ao mar.
- E o que ele disse?
- Nada.”
(Lygia Fagundes Telles)
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Terminou a palestra de forma muito à vontade, e atendeu prontamente a todos que o procuraram. Foi realmente um escritor que despertou e incentivou muito que estavam ali.
Fiquei encantada, fascinada, boquiaberta, empolgada e colocaria mais mil adjetivos aqui, só porque sei que ele detesta, pra dizer como o que ele fez conosco hoje foi maravilhoso, fabuloso, etc, etc e etc!
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E vou colocar aqui, um conto dele que achei além de contundente, de extrema realidade e reflexão:
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Muribeca
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Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão. É a vida da gente o lixão. E por que é que agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho? E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pela rua, roubar pra comer?E o que eu vou cozinhar agora? Onde vou procurar tomate, alho, cebola? Com que dinheiro vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa? Fale, fale. Explique o que é que a gente vai fazer da vida? O que a gente vai fazer da vida? Não pense que é fácil. Nem remédio pra dor de cabeça eu tenho. Como vou me curar quando me der uma dor no estômago, uma coceira, uma caganeira? Vá, me fale, me diga, me aconselhe. Onde vou encontrar tanto remédio bom? E esparadrapo e band-aid e seringa? O povo do governo devia pensar três vezes antes de fazer isso com chefe de família. Vai ver que eles tão de olho nessa merda aqui. Nesse terreno. Vai ver que eles perderam alguma coisa. É. Se perderam, a gente acha. A gente cata. A gente encontra. Até bilhete de loteria, lembro, teve gente que achou. Vai ver que é isso, coisa da Caixa Econômica. Vai ver que é isso, descobriram que lixo dá lucro, que pode dar sorte, que é luxo, que lixo tem valor. Por exemplo, onde a gente vai morar, é? Onde a gente vai morar? Aqueles barracos, tudo ali em volta do lixão, quem é que vai levantar? Você, o governador? Não. Esse negócio de prometer casa que a gente não pode pagar é balela, é conversa pra boi morto. Eles jogam a gente é num esgoto. Pr'onde vão os coitados desses urubus? A cachorra, o cachorro? Isso tudo aqui é uma festa. Os meninos, as meninas naquele alvoroço, pulando em cima de arroz, feijão. Ajudando a escolher. A gente já conhece o que é bom de longe, só pela cara do caminhão. Tem uns que vêm direto de supermercado, açougue. Que dia na vida a gente vai conseguir carne tão barato? Bisteca, filé, chã-de-dentro - o moço tá servido? A moça?Os motoristas já conhecem a gente. Têm uns que até guardam com eles a melhor parte. É coisa muito boa, desperdiçada. Tanto povo que compra o que não gasta - roupa nova, véu, grinalda. Minha filha já vestiu um vestido de noiva, até a aliança a gente encontrou aqui, num corpo. É. Vem parar muito bicho morto. Muito homem, muito criminoso. A gente já tá acostumado. Até o camburão da polícia deixa seu lixo aqui, depositado. Balas, revólver 38. A gente não tem medo, moço. A gente é só ficar calado. Agora, o que deu na cabeça desse povo? A gente nunca deu trabalho. A gente não quer nada deles que não esteja aqui jogado, rasgado, atirado. A gente não quer outra coisa senão esse lixão pra viver. Esse lixão para morrer, ser enterrado. Pra criar os nossos filhos, ensinar o nosso ofício, dar de comer. Pra continuar na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não faltar brinquedo, comida, trabalho. Não, eles nunca vão tirar a gente deste lixão. Tenho fé em Deus, com a ajuda de Deus eles nunca vão tirar a gente deste lixo. Eles dissem que sim, que vão. Mas não acredito. Eles nunca vão conseguir tirar a gente deste paraíso.

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"Muribeca" é um dos contos do livro "Angu de Sangue", publicado pela Ateliê Editorial no ano 2000
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3 comentários:

marcelino disse...

Samantha, querida, eta danado! Fiquei todo feliz com o seu comentário, depoimento, texto, enfim, assado. E de saber que vocês gostaram do bate-papo. Eu adorei, mulher! A sua simpatia, a da Evelyn, a simpatia de todos à sala. Experiência das boas. Únicas, revigorantes. Todos os adjetivos para você. Já somos amigos de longos tempos. O que precisar, estamos aí. Comeu microabração e beijos e vamos que vamos, Marcelino. Valeu!!!!

BAR DO BARDO disse...

seria bom estar aí e escutar o parlador significante pleno de significâncias

fero 52 binocular disse...

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