sábado, 15 de abril de 2006

Eu, Marçal Aquino e todo mundo dentro da sala!


Procurei uma foto na internet porque nem imaginava a aparência do cara que teria que buscar no aeroporto. Já tinha ouvido falar muito, sabia que era um escritor renomado e coisa tal, mas nunca tinha visto a cara dele. Lembro que assisti ao “O invasor” e, na época, nem pensei no cara que tinha escrito o filme, mas depois que me dei conta de que iria conhecê-lo comecei a relacioná-lo ao roteiro e pensar de onde viria tanta criatividade e imaginação narrativa.
Quando recebi o convite para ser a responsável pelo concurso Dedic Escreve em Londrina fiquei empolgadíssima, mas quando chegou a hora “H” pensei mais de mil vezes em desistir e pedir que escolhessem outra pessoa. Por outro lado, eu vislumbrava excelentes informações para meu currículo e mais ainda, inesquecíveis experiências ao lado de escritores famosos e cheios de coisas para me acrescentar.
Recebi a notícia de que teria que buscá-los no aeroporto, almoçar com eles, levá-los até o lugar dos workshops e depois encaminhá-los novamente até o aeroporto para que voltassem a São Paulo. Eu, quase morta de ansiedade, não tinha nem idéia de como faria isso. Não teria ‘cara’ de carregar aquela gente famosa no meu Chevette arrebentado e sujo e nem tinha grana pra levá-los a restaurantes chiques. Comecei a me preocupar muito.
Fui de táxi até o aeroporto acompanhada de minha gerente, que queria me auxiliar nessa primeira recepção. Ficamos conversando sobre ele enquanto os esperávamos e trocando informações sobre os livros, para que não cometêssemos nenhuma gafe (como se eu não fosse fazer isso de qualquer jeito!). Lembro-me que uma das informações do programa do concurso era que ele não gostava de ser considerado um roteirista que escreve livros e sim, um escritor que às vezes escreve roteiros.
Quando ele apareceu pela porta de desembarque foi impossível não reconhecê-lo. Aquele tipo quase inconfundível de escritor despojado e à vontade com a vida. A barba notável que o tornava extremamente individual foi o primeiro ponto no qual me agarrei para identificá-lo.
Fiquei um pouco tímida no começo, o que para mim é extremamente raro, pois tinha medo de falar bobagem ou não entender sobre as obras e traços de literatura dos quais ele falava. Mas com alguns minutos de conversa pude notar uma pessoa extremamente agradável e desembaraçada. Uma daquelas pessoas que você sente vontade de ficar somente ouvindo, nem por timidez de conversar, mais por tanta informação de qualidade que a pessoa pode lhe fornecer e você fica morrendo de vontade sugá-las ao máximo.
Fomos almoçar em um restaurante super agradável, comida caseira e conversa informal. A decoração era atraente, com quadros de molduras encapadas com histórias em quadrinhos e copos e pratos coloridos colados nas paredes. Ele nos contou sobre sua opção em cursar Jornalismo ao invés de só tentar ser escritor, já que na época isso ainda não era considerado profissão – não quero dizer que hoje seja, muito pelo contrário. Falou sobre a carência de ensino de uma literatura contemporânea nas faculdades hoje e, de fato, tive que concordar, já que o máximo que aprendemos de modernidade literária hoje é Vinícius de Moraes. Comentei com ele que todo o conhecimento atual sobre novos escritores e a nova literatura brasileira parte dos estudantes, já que as universidades pouco oferecem em matéria de currículo. Os assuntos variaram desde a literatura até sobre iniciativas privadas de aprendizagem e qualificação de jovens com pouco acesso a conhecimento no Brasil.
Eu ficava fascinada. Parecia até que não me dava conta e passava a imaginar que um dia eu poderia estar em sala de aula, dando aula de Literatura brasileira e dizer aos meus alunos que já tinha almoçado e conversado com Marçal Aquino. Acho até que os alunos iriam rir e achar que eu era uma velha louca, cheia de ilusões e fantasias.
Depois do almoço, nos encaminhamos ao auditório da empresa para que ele pudesse ministrar a Aula Inaugural do 3º Concurso Dedic Escreve de Contos e Poesias. O tema da aula era “Como me tornei escritor”.
Foi uma das tardes mais agradáveis da minha vida.
Marçal se mostrou uma pessoa extremamente acessível a todos, contou fatos de sua vida que o conduziram à onde está hoje e fez isso de uma forma tão comum que nos dava a impressão de que aquilo pudesse acontecer com qualquer um de nós que estávamos ali, encantados
. Um humor contagiante que nos incentivava a questioná-lo, a participar e dar muita risada de suas histórias. Fazia piadas com as situações engraçadas e soube se sair bem de todas as perguntas mais ‘diretas’. Contou histórias desde sua infância e do período em que esteve envolvido com a produção do filme ‘O invasor’ de Beto Brant. Falou com muita paixão sobre a incrível capacidade artística e riqueza cultural de “Sabotagem” e da facilidade com a qual ele se envolveu com o elenco do filme. Contou-nos de sua mania quase repugnante de prestar atenção às conversas das pessoas na rua e transpor todas aquelas cenas da vida real para suas obras, dando à elas uma proximidade incrível com o leitor e fazendo-as tão verossímeis.
O Auditório estava em êxtase com pessoas sentadas pelo chão, quase sobre os pés dele. A aula teve que ser encerrada devido ao tempo, mas certamente teria durado por mais duas horas caso pudéssemos nos prolongar naquele bate-papo. Atendeu a todos os ouvintes, distribuindo autógrafos e ouvindo opiniões. Na partida, entrou no táxi nos dizendo que tinha adorado aquela tarde e achava até que tinha sido muito ‘paparicado’ por nós. Uma simpatia invejável.
Respirei fundo e me senti com cinco quilos a mais de conhecimento. Um sentimento que, tenho certeza, envolveu todos os que estavam naquela sala e mais certamente ainda, mudou a visão de alguns a respeito da literatura, se é que alguém ainda tinha dúvida de que literatura é a mais real das sociabilizações.
Fiquei emocionada e não tive mais nenhuma dúvida de que era aquilo que realmente queria pra minha vida: chegar às pessoas através dos textos.
Semana que vem, terei mais uma experiência com outra fera: Alice Ruiz. Senti-me repleta de orgulho quando na divulgação desse evento, uma das funcionárias da empresa me olhou e disse: “Vou participar, porque fiquei com vontade só de ver tanta paixão nos seus olhos quando você fala disso. Eles brilham."
Fiquei boquiaberta, e não sabia se sorria ou me derretia em vaidade.
Espero ter muito mais pra contar aqui. Alice Ruiz e suas composições poéticas.
Vamos ver o que vem por aí.
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Samantha

Um comentário:

Calebe disse...

Samantha, negócio é o seguinte: eu tava saindo da tua página quando, do nada, meus olhos pararam em "Eu e Marçal Aquino" e aí eu falei: quê que é isso aqui?! Cliquei na hora e li todo o texto que você escreveu - não digo que com os olhinhos brilhando, mas com os dedos digitando as palavras assim.

Eu gosto muito da literatura do Marçal Aquino - até me lembro que tomei contato com ela ao acaso, quando peguei o livro "As Fomes de Setembro".

Eu também tenho uma história mais ou menos a esse estilo quanto ao Marçal. Eu o conheci não faz nem um mês, enquanto participava de um evento aqui em São Paulo, na Avenida Paulista. Um evento anual que se chama "Corredor Literário na Avenida Paulista" onde ter trabalhado foi a maior realização pessoal e profissional nesses últimos tempos.

Claro que eu não fui buscar, nem levar o Marçal pra qualquer lugar de avião, táxi ou Chevette - eu fazia parte da produção do evento que ele participava no Corredor Literário, o "Café Hora da Razão".

Muito engraçado quando pedi um autográfo para o meu "O Amor e Outros Objetos Pontiagudos" ele me perguntando qual era o problema, quando eu disse que tinha um, um pequeno probleminha.

- Sabe o que é, Marçal?
- Fala, você roubou o livro da biblioteca?
- Não, não é isso.
- Porque se for não tem problema, porque eu já roubei vários, Calebe.

Na verdade o problema que nem era problema nenhum é que eu havia comprado esse livro em um sebo e já estava autografado. Ele ficou mais alegre ainda para fazer o autográfo, e eu, claro, para receber - dois autográfos de um cara que curto pacas na literatura atual.

Engraçado, para exemplificar melhor ainda, é que eu tentei roubar o "As Fomes de Setembro", mas não deu muito certo. Enfim.

Mas e então: o que você faz? Estou supercurioso. E me diga: posso vir lê-la depois? - ler seus textos e esses outros "Relatos Íntimos".

Vou indo. Beijo. Apareço depois (exagerei no comentário, mas ninguém tinha feito nenhum - eu fiz um que fez jus ao que você escreveu, pelo menos).

Prazer conhecer tuas letras,

Calebe