terça-feira, 30 de maio de 2006

Atrás da burka

Amei esse texto do Renato Modernell.... ele em encaminhou depois da minha "ineficácia" (rsrsrs) em encontrar um texto seu para colocar aqui....
Foi até bom, porque acho que não teria encontrado um texto melhor.... Amei!
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Atrás da burka
Um dia, por mero acaso, descobri que a palavra inglesa woman (mulher) deriva da combinação de womb (útero) e man (homem). Ou seja, na origem, ela significa “homem com útero”. Não recordo se nesse dia terei abusado do vinho, mas o fato é que, ao saber disso, veio-me em mente uma idéia esdrúxula. Paciência. Aqui ela me servirá como ponto de partida para especulações que não direi machadianas (acalmem-se) mas descompromissadas.
Vamos imaginar que Freud, em vez de médico, fosse filólogo. Levando em conta a etimologia da palavra woman, ele teria estabelecido a premissa de que o homem tem inveja do útero, e não o contrário, que a mulher teria inveja do pênis. Aceitemos, na forma de um axioma, que man é uma palavra castrada, por assim dizer, em relação a woman, cuja sílaba a mais, no início, corresponde àquilo que – aparentemente – o homem tem a mais que a mulher, ou seja, um penduricalho na virilha.
Digo aparentemente porque vivemos no mundo das aparências, das exterioridades. Cada vez mais, a lei do menor esforço (sobretudo mental) se equipara à lei da gravidade, da qual não podemos fugir. Assim sendo, é muito mais fácil dizer que “falta” algo no corpo da mulher, pois isto parece evidente. Quando menino, eu mesmo tomei um susto no dia em que, de repente, sem esperar, pela primeira vez vi-me diante de uma menina da minha idade -- nua. Era num pátio amplo, aberto, numa tarde de sol. Fiquei pasmo. Perguntei-me algo assim: “O que lhe terá acontecido?”, ou talvez assim: “Veio de que planeta?”
As respostas haveriam de me chegar naturalmente, ao longo da vida, quando conheci de perto os efeitos da TPM e coisas do gênero. Mas desviei-me; não é exatamente disso que me interessa falar aqui, outros até o fariam com mais propriedade.
O que pretendo propor ao leitor, isto sim, é a hipótese de que esse algo oculto, o útero, é mais digno de inveja do que um outro órgão que está do lado de fora, bamboleante, exposto à intempérie. Só funciona de vez em quando, como um esguicho, e ainda precisamos nos dar por felizes se essa operação banal transcorre sem maiores problemas. Já o útero, womb, ligado a transmutações de energias e substâncias, nos fascina por seu potencial alquímico, se assim podemos dizer sem que pareça um bolero. Não é uma exaltação à mulher, por favor. É uma exaltação a qualquer coisa que vá além do óbvio.
Basta crescermos um pouco para nos darmos conta, sem muito esforço, de que o mistério é uma fonte de poder. E o poder da mulher, cuja ponta de lança está no mundo das aparências (aquele em que se pode escolher a cor do batom), tem como lastro o útero, ou seja, a invisibilidade.
Pensemos então nesse grande país de mulheres invisíveis, o Irã. Tão diferente do Brasil e, ao mesmo tempo, tão parecido (em ambas as sociedades, as forças arcaicas, como trepadeiras, se enredam mas não se misturam aos clamores de transparência e renovação; em ambos há algo que não mata nem morre, mas trava).
Como sabemos, as iranianas usam a burka, o véu que as cobre de cima abaixo, deixando apenas os olhos de fora. Entre nós, a burka é o bronzeado, o creme, a roupa de grife, todas essas coisas impostas pelos aiatolás da publicidade. Porém, como vivemos das aparências, o símbolo da opressão feminina só poderia ser aquele que não dá lucro, quer dizer, a burka, o xador, o véu, as coisas que estão do lado de lá, naquele mundo que já atacamos com espadas e bombas mas que, a despeito disso, muda lentamente.
A burka, como o topless, é ótima para causar frisson. Porque embaixo do pano há coisas que o olhar masculino não quer ver. Na verdade, quer, mas precisa de que alguém proíba. Do contrário, o homem seria obrigado a tirar fora a sua burka, que não é feita de pano, mas do medo tecido por seus ancestrais, e esse medo gira em torno da mulher.
Sob as longas túnicas muçulmanas, todo o corpo feminino, em vez de ser um espetáculo, passa a ser um território oculto. Assim como a natureza quis que fosse o útero, último reduto de mistério em nossa sociedade de carnes expostas, lambuzadas de protetor solar.
Porém a vida apresenta surpresas, mesmo no Irã. Lá aconteceu algo, nos últimos anos, que os fundamentalistas não podiam prever. Escondidas sob a burka, incógnitas, as mulheres se sentiram mais à vontade que os homens para inflamar as manifestações cívicas nas ruas de Teerã. Nesse momento, sua falta de identidade externa, resultante da opressão secular, se transformou numa força. O país está mudando, talvez da única forma pela qual seja possível uma mudança real – por baixo do pano. Nos meios universitários iranianos, ao menos nas maiores cidades, as professoras e alunas já constituem uma maioria acachapante em relação aos homens. Claro, isto ocorre também por um efeito colateral do machismo: o homem iraniano, sob o qual pesa a responsabilidade de provedor, abandona os estudos mais cedo que a mulher, para trabalhar e garantir o sustento da família. Mas isso, desconfio eu, não explica tudo.
Atrevo-me a supor que o despertar da mulher (no Irã e em outros lugares) para a vida intelectual e as funções públicas também se deva ao efeito residual de anos, talvez séculos, de permanência em uma situação privilegiada – atrás da burka – para se observar o mundo externo. Uma situação forçada, é verdade, e por isto condenável, o que não quer dizer que seja de todo ruim. A burka garante a possibilidade quase mágica de, ao cobrir o corpo, despir o olhar. Sim, despi-lo do medo, do preconceito, da formalidade social, de todas as couraças resultantes da obrigação de interagir com o ambiente público, em que qualquer transeunte pode ver nossos gestos e expressões.
Há uns dois meses vi uma muçulmana, toda coberta, em um ônibus urbano de São Paulo, o que é raríssimo. Demorei-me a observá-la tanto quanto, aos oito anos de idade, eu teria ficado olhando uma mulher nua pelo buraco da fechadura. Perguntei-me como aquela moça do ônibus veria esse mundo externo, escancarado, cotidiano e banal, no qual eu próprio me incluía. Invejei, naquele momento, seu modo de estar e não estar presente. Lembrei que, num passado remoto, também fui assim.
Os meninos e meninas da minha geração, os anos 60, queriam aquilo que querem os meninos e meninas de todas as gerações: ser alguém. Entenda-se com isso brilhar na pista, no campo, na quadra, no palco, no pódio, na tela ou na passarela. Em suma, estar à vista de todos. Comigo, não foi diferente. Também quis essas coisas, em maior ou menor grau. Porém havia algo, na contramão disso tudo, que me dava uma sensação de lucidez e intensidade. Às vezes, no verão, eu me trancava na cabine da camionete verde do meu pai, estacionada sob os eucaliptos em frente ao hotel da nossa família. Dali podia observar -- sem ser notado -- as pessoas que, a uma distância de 10 ou 15 metros, conversavam ruidosamente no avarandado.
Não vou entrar aqui na psicologia do voyeur, pois não tenho competência para tanto, nem sei se é bem o caso. Digo apenas que o fato de estar ali, fora de cena, praticamente escondido, protegido pela minha burka metálica (a cabina da camionete) propiciava uma percepção diversa das coisas e das pessoas, dos seus gestos e de sua maneira de estar no mundo. O distanciamento era uma forma de despi-las de suas burkas, os artifícios com que podiam me envolver, caso eu também estivesse no avarandado, vendo-as de perto, acreditando no que diziam. Estar oculto não era apenas uma forma de libertação, mas também uma forma de poder. O poder uterino. Aquele que causa medo aos homens, e também inveja, como Freud -- na condição de filólogo -- teria explicado melhor que eu.
Renato Modernell

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