quinta-feira, 18 de maio de 2006

Cíntia de jeito tocante e mecha rocha

Eu fiquei estática: Cintia Moscovich.
Ela chegou antes de mim ao aeroporto e a vi de longe. Já sabia que era ela. Me abraçou de um jeito tão carinhoso, que parecíamos velhas conhecidas. Fiquei fascinada, pensava : 'acho que vou ser assim, com esse cabelo roxo e com essa expressão de dona de tudo'.
Conversamos por alguns minutos enquanto esperávamos o táxi e ela não tinha entrado no meu blog, por isso, não sabia ainda que eu estava escrevendo sobre os escritores que vinham para cá. O que mais me encantou foi a desenvoltura com que ela falava das coisas e conversava comigo como se já tivessemos nos encontrado tantas outras vezes. Falou palavrão - amo quem fala palavrão! - contou tudo sem esperar que eu ficasse perguntando e parecendo enxerida. Imagina.. eu?
Fomos ao mesmo restaurante onde levei o Marçal e o Marcelino e, assim como eu, ela ficou admirada com a decoração, principalmente os quadros de molduras feitas de colagens. Ela me contou sobre sua vida literária e como tudo começou. Para meu desepero, me contou detalhes de como foi o espetáculo organizado pelo Marcelino em São Paulo "Autores em cena". Lembro que quase tive um colapso nervoso quando recebi o email do Marcelino me falando desse evento e me desesperei por não poder ir! Ela me disse como foi sua primeira experiência no palco e como tudo acabou maravilhosamente bem. Histórias engraçadas, dicas cheias de riqueza e momentos maravilhosos. Assim foi minha terça, nessa semana.
No caminho para o lugar da aula, ela me contou que quando começou a escrever fazia uma oficina de criação literária e seu professor quando entrou na sala olhou para ela e disse: 'Você é uma escritora'. Foi engraçado o jeito como ela contou que pensou que não fosse com ela, de uma maneira tão simples e verdadeira. Eu pensava: 'Como? Como não seria com ela?'
Deixou todos na sala encantados, deu-nos uma aula cheia de dinamismo. Até o sapato ela tirou para mostrar 'as pegadas' que o escritor deve deixar no texto para que leitor descubra. Falou sobre a importância que todo escritor deve dar à forma como sua escrita vai chegar ao receptor e como colocarmos personalidade em nossos textos fugindo dos 'clichês'. Foi interessante também o jeito como ela nos mostrou que está em volta da gente tudo o que precisamos para escrever, de como temos que passar a ver as coisas banais do nosso dia-a-dia com outros olhos, as cores das ruas, os cheiros, etc. Passou uma sensação tão leve e tocante da vida que fez com que eu, e acho até que a maioria da sala, sentisse que tudo é possível, sim. Sem clichê.
Conversou com todos, deixou que todos falassem e escutou tudo atentamente, com muito valor.
Eu, sem parar, olhava e pensava: vou ser assim, principalmente quando ela disse que sua influência veio de Clarice Lispector - por quem sou extremamente fascinada.
Tirou foto com a gente, falou sobre seu próximo livro e foi embora deixando aquele forte gosto de quero mais. Forte mesmo.
Estamos até agora encantados por ela. E eu peguei o nome da tinta para me fazer nos cabelos uma mecha roxa daquela. Achei tudo!
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Vou deixar aqui, um pedacinho de texto que roubei da página dela.
As personagens parecem eu e minha mãe!
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"Mamãe, hoje faz um mês que cometemos, meu marido e eu, aquele ato de insânia: adotamos em casa um cachorrinho. A senhora sabe e acompanhou: uma vizinha da rua trouxe o bichinho, enjeitado de uma casa na qual as pessoas não puderam ir muito longe no amor. Nós não queríamos mais animais na casa, a esperança era da que a senhora, eternamente sozinha, pudesse amar — ao menos o cachorro. A senhora não pôde e não quis o cãozinho, sempre temendo as perdas, sempre trocando a miséria de seus afetos na moeda banal do melhor não ter.Meu marido é um coração-de-manteiga, e hoje Efraim — esse é o nome do novo mascote — é mais um morador da casa. Apesar de, ainda sem saber direito onde é o banheiro, fazer xixi e cocô na sala e nos quartos. Efraim vive em pé de guerra com a gata, mas os dois já se vão habituando. O bichinho revelou-se um fuzarqueiro de marca: não pára quieto, exige atenção integral, corre e brinca como se o mundo fosse somente isso. Incansável.Pois foi logo depois de passar um senhor pito no cachorrinho por ele me mastigar os cabos do telefone, que eu liguei para a senhora. O telefone e a senhora, felizmente, estavam funcionando.Não posso reproduzir integralmente o diálogo que tivemos. A senhora se queixava de que não tinha dinheiro para pagar não sei que contas, que não era justo, depois de tudo o que passou para nos criar e nos manter, e por aí vamos. Eu caí na asneira de rebater. A conversa que se seguiu foi mais ou menos o que segue.
— Mamãe, a senhora tem tudo para viver bem. Só não vive porque não quer.
— O que você está me dizendo?
— Estou dizendo o óbvio: a senhora tem várias propriedades, que podem ser alugadas e render bom dinheiro.
— Não me incomode. Estou com dor de cabeça. Parece que vai explodir.
— Mamãe, a senhora quer que eu faça alguma coisa?
— O que você quer fazer?
— Algo pela sua dor de cabeça.
— Ah, agora que eu estou doente quer fazer alguma coisa. Nunca fez, não vai ser agora que vai fazer.
— Mamãe, a senhora está doente? O que a senhora tem?
— Não me incomode. Me deixe em paz. Você está me deixando nervosa. A doença que eu tenho são os filhos que eu tenho. Se eu soubesse, não teria tido nenhum de vocês três.
— Mamãe, que coisa horrível de se dizer.
— Horrível? Horrível é ter uma filha como você. Se eu soubesse que ia ter uma filha inimiga. Foi a pior coisa que eu pude gerar. Inimiga. Inimiga. Inimiga.
— Inimiga? Eu?
— Inimiga, sim.
— Mamãe, eu não sou inimiga. Só estou dizendo que a senhora pode viver bem e não vive bem porque não quer.
— Viver bem, como? Os imóveis estão imprestáveis, os apartamentos estão desalugados.
— Mamãe, a senhora administra esses bens há trinta anos. A senhora não pôde fazer nada para manter o que tinha na mão?
— Ora, não me incomode. Estou com dor de cabeça. Estou com raiva de você.
— Com raiva de mim?
— Com raiva de você, sim. Você, seus irmãos, ninguém reconhece o que eu passei.
— A senhora só fala que passou isso e aquilo, se repete e se repete. O que a senhora quer que a gente reconheça? A senhora quer que a gente erga um altar para a senhora porque rebentou seu patrimônio e acha que nós somos os culpados?
— Eu te odeio.E bateu o telefone.Veio-me a imagem de papai, ele a dizer, mais do que uma vez e sempre na sua frente, que tinha três crianças e uma infanto-juvenil. Uma infanto-juvenil, aliás, que, mais do que os filhos, exigia atenção integral e incansáveis cuidados. A senhora ficava embaraçada, mas nunca tinha resposta. Eu, menina, observava, querendo compreender.Hoje eu sei que o pior sobrou para mim. Tenho um bebê-cachorro e e aquela infanto-juvenil, que papai não pôde cuidar, porque morreu aos 56 anos de idade.
Onde é que meu marido estava com a cabeça ao aceitar em casa um filhote de cachorro?
Onde é que papai estava com a cabeça ao me deixar sozinha com a senhora?"
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Um comentário:

Cintia Moscovich disse...

Samantha muito querida,
finalmente achei o caminho do teu blog. Ufa! Não tinha tempo pra nada e só agora cheguei aqui, na tua casa internética.
Poxa, eu adorei teu post sobre minha visita a Londrina, cidade que amei. E amei sua gente, um pessoal muito compenetrado, cheio de coisas para fazer e viver. Não sei como te agradeço o carinho e a acolhida adoráveis. Não sei mesmo. Espero que persistas e sigas este caminho que amas, que todos amamos, mas que nem sempre é fácil -- o que torna tudo melhor ainda.
Um beijo pra ti, com imenso carinho e agradecimentos pelos momentos de pura emoção fraterna e literária.
Cíntia