segunda-feira, 15 de maio de 2006

Dia de Mãe


Ela lembrava de um dia que ainda não tinha existido. Sonhava constantemente com a criança que esperava da adoção. Já tinha até lhe dado um nome: Estrela.
Enquanto Estrela não a fazia mãe, ela sentava-se frente ao espelho e passava horas contando para si mesma como era seu sonho e como seria aquele dia.
"- É estranho porque nem tenho idéia de como a Estrela é, mas não consigo deixar de ter essa fantasia. Tenho esse dia na minha cabeça e sonho com ele desde quando achava que teria meus próprios filhos.
É inverno, e neva. Nesses dias não há aula e por isso, a deixo dormir até mais tarde. Quando abro a porta do quarto, ela está quentinha na cama e eu digo baixinho: 'Querida, está nevando, não precisa se levantar'. Ela adora esses dias nos quais é pega de surpresa.
Quando mais tarde ela acorda, chega à cozinha vestida em seu pijama de flanela e eu faço seu chocolate quente, bem forte, como ela gosta. Então, falamos sobre o que faremos naquele dia. Ela corre para a janela porque gosta de ver o limpa-neve raspando a rua e fazendo montanhas de gelo branquinho.
Corremos de volta para o quarto e eu escolho seu vestido, pois os que ela colocou não são quente o bastante. Ela já sabe se vestir sozinha, mas eu a ajudo porque adoro vê-la de braços ao alto, fazendo o vestido cair sobre o corpo, ou quando senta na cama e fica balançando as pernas enquanto eu tento calçar-lhe as botas. Vamos ao passeio para que ela possa patinar e quando se distancia um pouco, fica olhando para trás para conferir se estou observando-a. Há muitas crianças que fazem barulho e se agitam, mas ela prefere ficar ali comigo. Depois, quando a levo à lanchonete, deixo-a pedir batatas fritas, o que para ela, significa um banquete. Na mesa, ela me conta sobre seus colegas de escola, das suas brincadeiras, ou qualquer coisa que passe pela sua cabecinha. Ali naquela mesa, ficamos durante horas, até que me dou conta de que estamos rodeadas por outras mães e seus filhos, e eu, sou apenas mais uma delas.
E mais tarde, quando caminhamos até onde estacionei o carro, ficamos ouvindo o som de nossos pés afundando na neve nova. Dois passinhos dela para cada um dos meus. E se mais uma vez, não tiverem limpado a neve da calçada, eu vou na frente para lhe abrir caminho. Quando voltamos para casa eu me dou conta de que as horas voaram e eu acabei não indo trabalhar. Já nem me preocupo com o emprego. Nesse dia, sou apenas mãe."
De repente, ela percebe-se estática frente ao espelho e lembra-se que o dia de ser apenas mãe, não é aquele na vida real. Sai apressada, pois perdeu a hora em devaneios mais uma vez.
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Samantha Abreu
(texto baseado na personagem Eillen do filme "Casa de los Babys")

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