quinta-feira, 4 de maio de 2006

Genocídio


Ela matou os três. Chegou de saco cheio depois de ter batido o carro numa lixeira, o pára-lamas todo sujo e tinha ralado a pintura da porta. Sentiu vontade de atropelar todos que via pelas ruas, mas teve vergonha de chamar tanta atenção. Ah, mas eles não escapavam! Já tinha aguentado demais, eram contas para pagar, compras de supermercado e comida para fazer.
Matou todos com uma dose exageradamente generosa do seu veneno favorito, que já não lhe dava mais o mesmo prazer quando usava em ratos. Matou e saiu para espairecer na varanda, a passos leves. Na rua, alguns cachorros reviravam o lixo, famintos. Ela até pensou em dar-lhes aquelas carnes frescas que ainda tinham sangue quente.
Pensou que no dia seguinte, poderia voltar para casa somente depois do happy hour, e não teria mais aquela bagunça de brinquedos espalhados por todos os cantos da casa. Poderia ir ao shopping e já poderia até comprar em parcelas aquele vestido.
Samantha Abreu

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