quarta-feira, 3 de maio de 2006

Nelson e a Caixinha de Surpresas


Ontem foi dia de cultura, sim senhor!
Fui até o Aeroporto buscar o enigmático Nelson de Oliveira. Eu estava super receosa, pois tinha ouvido dizer que ele era um pouco sistemático e poderia não gostar de algumas coisas. Além disso, me disseram que ele tinha um humor sarcástico e um senso crítico absurdamente contundente. Até agora, foi o escritor que mais tive receio de acompanhar. O tema da aula que ele ministraria pra gente seria “Humor e fantasia no conto contemporâneo”. Aí pensei: um cara não daria uma aula com um tema desse se não fosse pelo menos um pouquinho gente boa. Às vezes, até me surpreendo com meu sexto sentido. Na mosca!
Ele se mostrou extremamente interessado em tudo o que a gente dizia. Fomos os três, eu, ele e a Evelyn, almoçar em um restaurante muitíssimo agradável, com uma área ao ar livre e decoração bem colonial. Enquanto nos contava sobre sua vida social em São Paulo, eu o observava e notava como ele era diferente dos anteriores como o Marcelino e o Marçal. Ele falava de forma serena, muito centrada e muito receptiva, atento a tudo. Falou bastante sobre sua filha e de como incentiva a leitura de obras mais recentes que apresente a ela o cenário em que ela vive, de alta tecnologia e dinamismo.
Ouviu com paciência todo o meu desabafo sobre a frustração com a vida docente depois do estágio que fiz ano passado em uma 5º série de escola pública, e discutimos muito como surgem grandes idéias e movimentos quando os escritores, mesmo que amadores, formam grupos e se reúnem com finalidade de construir e debater suas idéias. Até me sugeriu que eu formasse um desses grupos e que a gente se reunisse para ler uns aos outros e discutir o que pensamos. Achei o máximo, e já estou até com milhões de idéias de como fazer isso.
Sua aula foi a mais ‘prática’ que tivemos até agora. Acredito que usou conosco toda sua experiência com as Oficinas Literárias que coordena e nos deu alguns exercícios de criação. Leu pra gente alguns contos e pediu que disséssemos a diferença entre o conto, a crônica e o poema. No final, colocou uma música japonesa que, não só em mim mas em todos na sala, causou uma inspiração surpreendente. Eu escrevi um conto que nunca imaginei que faria. Depois vou colocá-lo aqui.
Falou bastante sobre a necessidade de criatividade, de como nosso quadro atual está carente de novidades e de pessoas que escrevam com mais liberdade. Discutimos desde a postura de Editoras em busca mais de lucro do que qualidade, até a falta de iniciativa de alguns autores que, muitas vezes, ficam esperando as coisas acontecerem. O mais legal é que ele foi muito racional e não fantasiou pra gente um mundo maravilhoso e cheio de reconhecimento. Repetiu várias vezes que a luta é árdua e nem assim, deixou de nos passar encantamento e fascínio por esse mundo artístico.
Foi um show de técnica que nos colocou muito próximos de um mundo que estamos, a cada aula desse concurso, mais convencidos de que queremos conquistar.

Ganhei dele uma antologia de contos próprios intitulada “Pequeno dicionário de percevejos” e vou colocar um conto dele aqui:
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Uma Velhota

Era uma velhota já bastante acabada quando abri a porta, boa tarde, ela me disse, boa tarde, respondi-lhe, estou vendendo doces e bolos em fatias, foram feitos agorinha, agorinha, não quer um, seu rosto era redondo e vermelho, igual ao pedaço de bolo que ela trazia dentro de um cesto grande, velho, velho, não havia nenhum sinal de doces ali, não, muito obrigado, agradeci, procurando fechar com delicadeza a porta antes que ela tentasse entrar à força, ela não me disse mais nada, fez uma cara de triste, deu meia volta e por um momento, pensei que fosse embora, mas não foi, encostou seu nariz no meu, não sei porque você sempre me diz isso, olhe para você, não come bem, quase não dorme, está emagrecendo a olhos vistos, está com um aspecto doentio, pensei em expulsa-la com um objeto qualquer, uma vassoura, um guarda-chuva, você mora sozinho, quando ela me perguntou se eu morava sozinho, logo percebi que aquilo era mais um dos seus truques, seu pé estava muito bem colocado entre o batente e a porta, mamãe, eu gritei, já bastante irritado, pare com essa encenação ridícula, ela sorriu, naquele momento não havia como fechar a porta, deixei que entrasse, fomos logo para a minha cama, acordamos tarde e as últimas fatias e bolo deixamos para comer no café da manhã.

Nelson de oliveira

Um comentário:

Nelson de Oliveira disse...

Samantha, você foi muito generosa ao compor meu perfil. Gostei muito! Pra mim foi uma experiência novíssima passar voando (literal e metaforicamente) por Londrina e pela sensibilidade superjovem desse grupo de futuros escritores.
Curti muito conhecer vocês e conversar sobre meu assunto predileto, a literatura. Meu grande medo era voar alto demais e ir parar lá na estratosfera, ou seja, entrar na sala falando de temas muitos abstratos e de conceitos maçantes. Creio que isso não aconteceu, graças a Zeus!
Ficarei de olho no resultado do concurso. Aposto que o vencedor vai ser novamente alguém daí.
Um beijo agradecido,
Nelson