sábado, 27 de maio de 2006

Renato Modernell e o Porquê a gente escreve!


Nesta terça cheguei cedo ao Aeroporto e não tinha nem idéia do que viria pela frente. Esperava receber Renato Modernell com um quê mais de jornalista do que de escritor, mas fui surpreendida por uma pessoa sensível, extremamente comunicativa, de olhos expressivos e atentos à tudo. Fantástico.
Quando desembarcou, já foi logo me atropelando de informações, se adiantando preocupado em fazer o Check-in da volta, me perguntando coisas... parecia, mais do que eu, ligado em uma tomada de 220 volts. Ele já tinha participado do concurso do ano passado e por isso, sabia como funcionava. Achei simpática a forma de me perguntar sobre nossas experiências, não se prendeu em me perguntar sobre o concurso, mas queria, a todo custo, saber das pessoas: do que elas gostavam, o que queriam, do que falavam.
No almoço, me fez comer salada! Me fez comer espinafre e cenoura! Prestava atenção à tudo o que eu dizia e parecia - pelo menos parecia - dar muita importância. Um bom humor inteligente, calmo. Me deixava com vergonha quando me perguntava sobre a história de Londrina - interesse natural, já que ele não conhecia ainda - e eu, tinha que dizer que sabia tão pouco! Ah, Meu Deus! vou ter que começar a estudar a história de Londrina.
Conversamos sobre as mais diversas coisas, até coisas distantes de Literatura e um fato engraçado aconteceu: quando foi me dar um cartão de visitas, não achava seu porta-cartões dentro da bolsa. Dei risada e falei: "-Tá vendo, agora você já sabe como uma mulher se sente procurando um batom dentro da bolsa e não acha. Por isso, às vezes, a gente tem que arrancar tudo de dentro, pra desepero dos machistas!". Ele riu e teve que arrancar tudo de dentro da bolsa, colocando item por item sobre a mesa. Rindo, ele disse: "-Vê se não vai escrever sobre isso no seu Blog".
Renato, me desculpe, mas foi inevitável. Mas vê se segue meu conselho e compra uma 'necessaire' pra guardar as carteiras e bloquinhos menores!
Quando chegamos ao auditório ele já conversava com todos de maneira encantadoramente receptiva. Falou com o Anderson Loof - um de nossos colaboradores e uma mega antologia musical em forma de gente - sobre seu espetáculo cênico "Santeria", que está sendo apresentado no Tomate Seco café e depois irá para São Paulo.
Foi uma aula riquíssima. Ele dividiu pra gente em tópicos todos os bons motivos e assuntos para ser escrever uma narrativa. Achei tocante quando dentre vários motivos pelos quais a gente escreve citou Gabriel Garcia Marquez: "Escrevo para que meus amigos me amem ainda mais".
Fez com que a turma de reunisse em pequenos grupos e juntos escrevessem sobre uma cena fictícia, e nos colocou um samba como inspiração. Foi maravilhoso. Saíram histórias melancólicas e trágicas (como as minhas sempre são), histórias frescas e cheias de flores.... uma variedade incrível. Depois disso, em cima de nossas construções nos deu exemplos de melhora, de mudança e de maior criação. Ganhamos a tarde.
Infelizmente, como ele é romacista, não vou conseguir colocar aqui uma obra dele. Mas, vou deixar o conto que escrevi sob sua inspiração, na aula de terça passada!
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Praça do Choro
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Na soleira do palco estavam crianças de trapos surrados, encantadas com o dedilhar dos cavaquinhos. É chorinho. Homens de chapéus passavam apressados, fugindo dos malandros. Meninas sorridentes tomavam a fresca com os novos vestidos de flores, assustadas com os cães abandonados à sorte. O som era sereno e tornava o fim de tarde muito agradável naquela praça. No meio deles estava Rosa, à espera do seu agulha Joaquim. Como sempre, ele a faria perder a sessão no Cine Vila Rica e tentaria convencê-la com alguma desculpa qualquer. Com o olhar cheio de agonia, ela batia as pernas. O pescoço virava de um lado para o outro à procura de Joaquim. Bem que a mãe já tinha lhe avisado para que não desse confiança àquele malandro, mas ela envolvia-se cada vez mais com ele, sempre tão cheio de mistérios. Já tinha tentado por inúmeras vezes livrar-se daquela paixão, mas seu coração sempre a traía. Ah! Mas dessa vez ele teria um bom castigo.
Ainda sentada no banco da praça, tentava se distrair ao som daquele chorinho tão encantador, mas a ansiedade já lhe fazia gastar o salto do sapato de tanto bater-lhe no chão com o tremor das pernas. Quanto mais ela tentava se concentrar, mais a incomodava o barulho daquelas crianças ao redor do pipoqueiro e a correrem entre os bancos vazios. Reparou em um casal que fazia pose frente ao lambe-lambe, e ela ali, com raiva. O fotógrafo aproximou-se, mas antes que lhe falasse algo, ela já lhe acenou um não com a cabeça. Não tinha a menor intenção de registrar aquele momento de aflição, sozinha na praça.
Determinada como era, levantou batendo com as mãos a poeira do vestido e decidiu ir ao cinema sozinha. Pôs-se a atravessar a rua em passos firmes, ficando cada vez mais longe dos bancos da praça. Como o destino sempre tem dessas ironias inexplicáveis, ela nem bem deu dez passos, Joaquim virou a esquina afobado, passando ainda o pequeno pente pelos cabelos. Apressado, ele olhava em todos os cantos procurando por Rosa. Parou por um momento na calçada e deu-se conta de que ela não estava ali. Pensou que mais uma vez, ela o teria abandonado e optado por se casar com um dos 'bons partidos' que sua mãe lhe arrumava. Já estava cabisbaixo quando gritos lhe assustaram. Virou-se rapidamente e viu que as pessoas formavam um tumulto no meio da rua, frente ao cinema. Reparou que alguns homens apertavam os chapéus contra o peito, as mulheres amparavam umas às outras enquanto as crianças cessavam os gritos das brincadeiras. Parou a música.
Joaquim foi lentamente aproximando-se da multidão, quando a viu no asfalto. Rosa estava lá, desfalecida. Ao seu lado, charretes tombadas e sangue. De joelhos, abraçou-a pedindo perdão.
Dias depois, recebeu pelo correio um envelope. Com total falta de interesse abriu e foi surpreendido por uma foto de Rosa com o olhar agoniado, sentada no banco daquela praça onde o esperava ao som do chorinho. Seu perfil era de tristeza e sua alma estava repleta de aflição.
Para quele lambe-lambe, a cena continha toda a riqueza de emoções carregadas pelo ser-humano.
Uma moça desconhecida à espera de seu amado.
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Samantha Abreu

Um comentário:

RIZ_SS disse...

Fantástica, simplesmente fantástica sua vida em prosa.