domingo, 25 de junho de 2006

Patativa do Assaré

Patativa é o melhor exemplo de fenômeno cultural nordestino. Sua poesia extrapola toda e qualquer regra culta, ou até as vezes, faz uso dela para mostrar a mais pura e tocante alma do homem sertanejo. Poesia de enorme engajamento social, e por emprestar seu canto – repentista – e sua poesia a qualquer homem que busca justiça e liberdade, Patativa foi aclamado a voz mais alta do sertão. Patativa em tupi é o nome do pássaro Sporophila plúmbea, uma das espécies mais procuradas no interior do Brasil, pelo seu belo canto.
Apesar de quase nenhum estudo formal, a criação poética e uso da linguagem feita por Patativa é admirável. É autor de seis livros de poesia, participa de quatro coletâneas literárias e criou milhares de versos.
É encantadora a forma como ele usa as palavras, e cada uma delas desempenha um papel contundente em cada verso.


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A Triste Partida é uma das poesias mais lindas. Acho verdadeiramente tocante. Fala sobre a família de retirantes que fugindo da seca, pensa encontrar em São Paulo a realização de um sonho.
Vou colocar apenas algumas estrofes dessa poesia, que foi inclusive, gravada por Luís Gonzaga.

A Triste Partida

Apela pra maço, que é o mês preferido
Do Santo querido,
Senhô São José.
Mas nada de chuva! ta tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.

Agora pensando segui ôtra tria,
Chamando a famia
Começa a dizê:
Eu vendo mau burro, meu jegue e o cavalo,
Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê.

(...)

- De pena e sodade, papai, sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta: - Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!

E a linda pequena, tremendo de medo:
- Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé fulô!
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.

Chegaro em São Paulo - sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha, da mais feia gente,
Tudo é diferante
Do caro torrão.

Trabaia dois ano, três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode, só veve devendo,
E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.

Se arguma notícia das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de uvi,
Lhe bate no peito sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.

Um comentário:

Anderson Almeida disse...

Com certeza Patativa do Assaré com sua poesia genial, deu voz a inúmeras figuras do nordeste... perdeu a visão do olho direito muito menino, e acredito que com isso ele sempre associou a cegueira a vidência.
Mas tem uma que é genial como tantas, mas que eu adoro...

"Perdi meu ôio direito
Ficando mesmo imperfeito
Sem vê perto nem longe
Mas logo me conformei
Por saber que assim fiquei
Parecido com Camonje"
Patativa do Assaré

Um gênio...