quinta-feira, 29 de junho de 2006

Vida por direito

Raul olhava pela janela enquanto conversavam. Lágrimas lhe escapavam de maneira quase clandestina. Com a voz trêmula, tentava convencê-la:
- Rita, eu quero morrer porque a vida, para mim neste estado, não é digna. Entendo quando você me compara à outros tetraplégicos, sei que eles podem não achar essa vida medíocre, mas não me convém julgá-los já que querem viver. Por isso, não quero que me julguem. A morte está e sempre estará aqui, por que ignorá-la? Você está aí, satisfeita com sua cadeira de rodas, mas eu não quero isso para mim, seria como aceitar migalhas do que foi minha liberdade. Estamos a menos de dois metros um do outro, o que para a maioria das pessoas é uma distância insignificante, mas para mim, chegar até aí e tocá-la é uma viagem impossível!
Ela o observava indignada:
- Raul, posso escutar quieta tudo o que você tem a dizer, e até fingir que entendo essa sua loucura inconformada, mas jamais colocarei cianureto ou qualquer outro veneno em sua boca. Não facilitarei um suicídio!
- Querida, estou assim há 20 anos e nunca vacilei sequer um dia na decisão de acabar com essa tortura.
Enquanto permanecia deitado olhando pela janela, dezenas de flashes vinham à sua cabeça, tomando sua alma de desespero. Nunca mais viveria aqueles momentos. Sua condição lhe era tão humilhante, que ele não se conformava por não conseguir nem mesmo tirar a própria vida sozinho.
- Raul! Ainda vejo vida em seus olhos. Não é possível que você esteja tão convicto disso! Ela falava enquanto ele lhe ironizava. - E por que você me sorri assim?
- Quando não se pode fazer nada sem a ajuda dos outros, a gente aprende a chorar com sorriso nos lábios!
Ela saiu, deixando-o sozinho naquele quarto adaptado. Tinha vários cordões pendurados sobre a cama para que ele, ao puxar com a boca, tivesse acesso às coisas tão comuns como atender ao telefone ou ligar o rádio. Não suportava mais aquilo. Por mais uma noite, dormiria pedindo a Deus para não acordar nunca mais.
Logo cedo, a enfermeira lhe trouxe o café da manhã e ao sair do quarto, pode ver Rita entrando, batendo as rodas da cadeira nas quinas da cama como sempre fazia.
- Bom dia querida! Espero que não tenha vindo tentar me convencer novamente.
- Raul, tantas coisas boas aconteceram com a gente. Sei que você não gosta de olhar o passad...
- Eu prefiro ver o futuro!
- E o que é o futuro para você?
- O mesmo que para você: a morte. Ou você não pensa na morte, Rita?
- Claro que penso! Mas me esforço para que não seja meu único pensamento.
- Rita, meu amor, no dia do acidente nós não estávamos sozinhos. Éramos jovens, os amigos sempre nos acompanhavam. Mas agora, veja! Quem está aqui, além de nós dois?
Sobre o colo, ela apoiava as fotos que ia passando uma a uma pelas mãos e lhe recordava aquela juventude alegre, cheia de festas e bons momentos. Dos olhos, lágrimas rolavam até pingar em algumas delas.
- Me lembro daquele dia e tenho certeza de que deveria ter morrido – ele dizia emocionado – Hoje sei que é verdade quando dizem que perto da morte os momentos importantes da vida passam pela nossa cabeça. Isso aconteceu comigo, por isso, sei que eu deveria ter morrido.
- E o que você viu?
- Tantos lugares onde estive. Nosso amor, tantas crianças....
Não podia mais falar, lágrimas lhe doíam presas à garganta e a voz não saía mais.
- Eu te amo e te quero comigo, Raul.
- Rita, a pessoa que realmente me ama, é a que me ajudará a morrer. Você só está piorando as coisas assim, questionando tudo e mexendo com meus sentimentos. Quero poder decidir!
Ela tinha um pouco da dor que ele sentia. Para ela, esperar pela morte também não parecia digno. Tinha sobrevivido àquele acidente, mas por conta de uma doença degenerativa, já havia perdido o movimento das pernas, e sabia que era apenas questão de tempo até perder a visão, e a lucidez. Não queria esperar por isso, mas tinha muito medo. Essa era a única diferença entre ela e Raul. O medo a impedia de uma decisão tão precisa como a dele.
- Querida, sei que você compartilha comigo deste inferno assim como dividimos agora este cigarro, mas para um espírito como o meu, isso tem sido um suplício!
- Raul, liberdade que elimina a vida não é liberdade.
- E vida que elimina a liberdade não é vida!
Ela calou e sabia que, cedo ou tarde, ele cometeria uma loucura. Não se imaginava sem ele, que era seu único motivo de ainda estar viva.
No outro dia, enquanto almoçavam, ela o observava com olhos pesados.
- Raul, não sei mais o que faço aqui. Você não vê que algo está acontecendo? Não vê que algo ainda nos mantém ligados como amantes, se não fossem essas nossas pernas, por todos esses anos?
- Olhe para você, olhe para mim. Aonde mais iremos Rita?
- Pare! Não pense que a morte não está em meus pensamentos! O que você diz não me sai da cabeça há dias, então, tomei uma decisão e vou fazer isso Raul. Vou me suicidar... Os dois se olharam e uma harmonia aconchegante se instalou ali. Ela chegou o mais perto possível da cama, carinhosamente lhe tocou o rosto - mas antes, se você quiser, gostaria de te ajudar. Iremos juntos, meu amor.
Era silêncio. Ele a olhava admirado por tanta coragem e determinação.
- Você não me diz nada Raul? Não era o que você queria?
- Quando?
- Preciso ajeitar algumas coisas.
Algum tempo passou e ela continuou firme, sem qualquer indicio de voltar atrás em sua decisão. No tão esperado dia, já não se concentravam em nada além da explosão de sentimentos dentro do peito. Ela chegou bem perto à cama, de onde pudesse alcançar a boca de Raul e se olharam pela última vez. Pegou os dois copos d’água já preparados cuidadosamente e fez com eles, um em cada mão, um brinde àquela morte tão libertadora. Colocou devagar um dos copos na boca dele e levou o outro copo até a própria boca. Juntos beberam. Deu nele um beijo e o abraçou.
Morreram ali, juntos.
A partir dali, viver teria sido um direito e não mais uma obrigação.
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Samantha Abreu
(tela "The Dream" de Picasso)

2 comentários:

Anônimo disse...

Amor... vc é meu amor

"(...)No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida. E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. (...) E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."

Vinicius de Moraes
"pra vc, meu bem, pela falta que vc me faz"

Mariana disse...

Sassá...
lindo esse conto, mas tãããoo triste!
vc fala muito da morte, parece até fascínio.. o que qué isso! rsrsrs

Mas vc sabe que eu adoro tudo isso aqui...
Um beijo amiga!

Mari