sábado, 22 de julho de 2006

Estorvo de Vida

A vida sempre lhe pareceu um caus. As coisas da casa insistiam em estar constantemente desarrumadas e as sujeiras se amontoavam pelos cantos na tentativa de se esconderem dela e de sua descontrolada ansiedade por asseio. Passava dias a escutar barulhos estranhos, o cabelo emaranhado entre os dedos, que passeavam pela cabeça em busca do centro daquela dor.
Era espevitada e tudo lhe causava um incomodo levemente costumeiro que lhe dava uma súbita vontade de correr para longe de tudo. A vida em si, já lhe era desconfortável. Estava sempre procurando seu lugar, sua gente, sua função.
Os pais lhe internaram várias vezes, e ainda assim, não encontraram solução. A angústia que lhe saía dos poros e refletia desespero em seus olhos era de penalizar qualquer um que a observasse.
Nada adiantou para ajudá-la até o dia em que a mãe, depois de esquecer o veneno para ratos sobre a geladeira, encontrou-a caída no meio da sala, na hora da novela. Ainda soltava alguns gemidos, mas a mãe não moveu um único músculo para socorrê-la, apenas prendeu os olhos à tevê enquanto sua novela preferida era transmitida e ali ficou, até que tivesse certeza de que finalmente, seu espírito estava em paz.
Lucia debateu-se alguns segundos no tapete e como em agradecimento olhou para a mãe que tentava, em vão, ignorar aquela dor.
Finalmente, a vida lhe acabava.
Deixava-lhe aquele estorvo, em paz.


Samantha Abreu

3 comentários:

Marcelo disse...

Clarice Lispector?
já tá quase igual!
Boa narrativa psicológica!

Isso é fluxo de consciencia pura!

Beijos Sá!

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Anônimo disse...

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