sábado, 29 de julho de 2006

Fenemê

- Você não tem pau? Pois então, mostre pra eles.
Era só o que faltava: arriar a calça e mostrar o pau pro meu sogro, pra minha sogra, pras cunhadas, cunhados e sobrinhos da minha mulher.
Catarina tem a língua solta e o pavio curto. Virou-mexeu, fala o que não deve. Pra piorar, tem mania de tomar minhas dores e sair em minha defesa. A mim, pouco importa o que falam a meu respeito.
Outro dia, uma vizinha nossa pôs a cara no muro e, ao me ver tomando sol no quintal, fez a besteira de comentar:
- Vida boa, hein, Fernandinho? A gente aqui se matando e você aí, no bem bom.
Pra quê! Catarina veio feito um foguete lá de dentro, pulou o muro e avançou direito no pescoço da mulher. Rolou com ela pela terra, puxou cabelo, mordeu, um horror. Se não fosse o Tigre, o cachorro da vizinha, acho que ela matava a mulher.
E agora esse desastre.
A mãe da Catarina nos convidou para o almoço: um franguinho desossado com recheio de farofa de ameixa preta, do jeito que eu gosto. Mas o Tiago, sobrinho de Catarina, inventou de tirar uma com a minha cara:
- Esse frango tá tão macio que deve ser capão, como o tio Nandinho.
Nandinho sou eu.
Catarina ergueu-se de um pulo, vermelha como um pimentão, catou uma faca e atravessou o corpo sobre a mesa apontando a faca pro nariz do menino.
- Repete, seu bosta, repete pra ver quem é o capão desta mesa
Ao ver a tia naquele estado, cuspindo farofa pra todo lado, o garoto achou graça e repetiu. Foi quando Catarina virou-se pra mim e ordenou:
- Abaixe as calças, Fernandinho, mostra o tamanho do pau que você vai meter no cu de todo mundo.
E bem eu, que tenho um pau minúsculo como uma vírgula. Afundei os olhos no prato e fingi que era surdo de nascença. Mas ela insistiu:
- Mostra Fernandinho, mostra
Pedi licença e levantei da mesa. Fui fumar na varanda.
Não sei a quem Catarina puxou. A família dela é uma gente de bem, educada. A minha é que tem sangue quente. Meus irmãos viviam quebrando a cara de meio mundo, principalmente quando gozavam da minha cara.
Os moleques diziam que eu era mariquinha, boiola. Eu nem ligava. Quer falar, fala. Não tô nem aí. Nunca fiz por confirmar nem desmentir.
Quando Catarina mudou-se para a nossa rua, gostei do jeitão dela. Ela falava alto, fumava na rua, bebia cerveja, até jogar palitinho no bar ela jogava. Não tinha rapaz que chegasse perto. Engraçado é que das outras moças eu tinha medo, dela não tinha não. Quando começamos a namorar, ninguém acreditava. O povo ria às nossas costas.
Uma vez, o Maneco boca-torta, bêbado feito um gambá, gritou ao nos ver passar:
- Lá vai o mongolóide e a mulher-trator. Se bobear, ela passa por cima dele. Deixa ele esmagadinho no chão.
Foi a primeira vez que vi Catarina enlouquecida por minha causa.
- Olha aqui, seu bêbado filho da puta, acho mais fácil passar por cima dos seus cornos.
- Se o pessoal não separa, ela apertava o pescoço dele até matar.
A verdade é que somos um par de chinelos com os pés trocados, e daí? Qual o problema?
Sem se despedir de ninguém, ela me chamou pra ir embora, abriu a porta do caminhão e sentou no seu lugar. Eu dei a volta e sentei no meu. Gosto de ver Catarina dirigindo este puta fenemê. Na mão dela, parece um carrinho de mão. Tenho vontade de botar a cabeça pra fora e gritar:
- Saiam da frente, bando de pamonhas, que aqui tem macho. Se duvidar, mostro meu pau.




Ivana Arruda Leite
http://doidivana.zip.net/index.html

Um comentário:

Anderson Almeida disse...

...hahaha essa mulher combina com fenemê mesmo!