sábado, 29 de julho de 2006

Segredos

O garoto escondia as revistas debaixo do colchão e as valorizava feito economias de anos de trabalho. Tinha aprendido isso com o pai, que fazia do colchão seu cofre particular para bens valiosos. Sem saber ao certo o que o pai tanto escondia, ele achava que compartilhavam o mesmo segredo, fazendo-se cúmplices. Desde cedo, trancava-se quarto e passava horas divertindo-se com aquelas garotas de papel. Algumas vezes, imaginava se o pai fazia o mesmo, tinha os mesmos momentos de prazer solitário. Prazer com gosto de coisa proibida.
Um dia, ouvira um estrondo vindo do quarto ao lado e saiu apressado, com um sentimento gritando socorro dentro do peito. Viu o pai caído ao lado da cama, sangue escorrendo ao chão, e na mão um curto bilhete: “Fui embora com o Antonio, seu amigo. Peguei o dinheiro em troca dos vinte anos dedicados às suas neuroses. Peço apenas que cuide do nosso filho, Amélia”.


Samantha Abreu

Um comentário:

Anderson Almeida disse...

Ainda não havia lido este texto! Eu achei muito bom, uma costrução dramática incrível...
Parabéns...