quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Escritoras Suicidas

Vou colocar aqui um texto e uma poesia de duas “escritoras suicidas” que achei maravilhosas (os) – elas e os textos- e o site também é deslumbrante!
Entra lá ó: Escritoras Suicidas

amelie poulin ou amélia de polainas

Ela pode se chamar Jolene e vai às tardes visitar o túmulo de uma atriz. Ela canta no coral, mas tem o hábito das polainas, as pernas dentro delas, vocaliza de perna grossa. Tem marido que a espera tirar do forno o pato com laranjas. As polainas no aquecedor pra secar, não tem varal, não tem quintal, casa de mil anos.
Luís não gosta de polainas nem ombreiras, é pintor, quer coerência. A pasta de dente com listras vermelhas verticais, não as deixa enrolar por nada, as listras retas na escova.
Jolene, o nome está bem escolhido, fica esse. Jolene usa ombreira e polaina de propósito. Hora dessa bota joelheira, quer um homem pra baratinar, pra dizer que teve um. Pra ele tanto faz Jolene como Jussara ou Joelma, o que vier, veio. Perfura as moças pra ninar no colchão pélvico delas, ainda que de polainas.
Jolene vai ao cemitério levar flores em dois jazigos, um da atriz assassinada, outro de um tio que não conheceu, mas deixou a casa onde mora. A atriz foi morta por Luís, é bom deixar claro. Ela sabe, viu foto no jornal e ia visitar na cadeia, levava geléia de amora com bolo de ovos, um dia levou almofadinha para descansar os olhos, um travesseiro recheado de macela.
Percebeu o ódio dele por polainas na cadeia, Luís cuspia a comida quando a moça do refeitório estava por perto, ela usava polainas pretas; longe dela comia feito capivara na beira do rio, se fartando.
Jolene pra cima e pra baixo com as falsas panturrilhas, falsos ombros, falsa sombra.
Foi costurando ombreiras em cada malha de lã, ousou botar em regatas. Luís já fora da prisão, pena cumprida, só queria uma capaz de o deixar usar o banheiro sem hora pra sair. E as polainas pela casa, até dentro do banheiro, onde ele fazia bolinha e botava dentro da cueca, do jeito que a atriz gostava; atriz de nome Amélia, polainas azuis.
Andréa Del Fuego

VIBRA CALL

Lâminas são muito úteis: servem para depilar as pernas e cortar os pulsos.
Quase cortei.
Celular, também: ele me liga sete oito nove dez vezes seguidas.
Não atendo.
O arrependimento dele treme treme treme treme entre minhas coxas.
Ele riu.
Eu gozo.
Por último e melhor.

Adelaide do Julinho

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