quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Por conta do horóscopo

Bom doutor, é o seguinte: eu amo um, vivo com outro e desejo um terceiro. Isso tudo me bloqueou, fiz uma confusão danada com esses signos, e não consigo mais escrever os horóscopos.
Faz cinco anos que trabalho no jornal e escrevo esses horóscopos todos os dias. Não, não sou astróloga, vidente, mãe de santo, nem nada dessas coiseras todas aí. Gosto mesmo é de inventar histórias e imaginar a cara de quem tá lendo. Pois veja, às vezes escrevo uma coisa triste, porque sei que no outro dia, quando ler uma coisa boa, a pessoa vai dar mais valor. É isso que acontece comigo, e acho que com todo mundo, né?
Eu amo tanto o Aristides, doutor, mas tanto, tanto, que a gente não sabe conviver. Somos que nem cão e gato, e ainda por cima, fica todo mundo falando que um dia a gente casa! Casa nada! E se casar, é bem capaz de um matar o outro. Ele agora resolveu não me olhar mais na cara. Acho que foi porque eu descobri que ele tava de caso com uma sambista lá da vila. Aí, eu escrevi no signo dela que seria traída, e o senhor acredita que eu mandei o jornal de presente pra ela, e ainda por cima, escrevi no signo do Aristides, que é Áries, o desgraçado, que ele cometeria uma grave traição por conta da incapacidade de ser fiel. Ah! A mulher quando leu as previsões, casou as informações e mandou o Aristides pastar. E agora, ele acha que a culpa foi minha! Quem manda querer me fazer de besta, e ainda arrumar mulher crente em horóscopo?!
Agora com o Genival é diferente. Faz tudo o que eu quero, me enche de mimo e agüenta as bordoadas. É isso mesmo doutor, não sou mulher de dar mole pra homem nenhum não. Acho que toda mulher tem mais é que judiar mesmo do cabra, quando tem oportunidade. Eu não tenho culpa do trouxa da vez ser o Genival, coitado! Minto tanto pra ele, que às vezes até me esqueço e ele me pega nas mentiras. Mas eu sempre dou um jeito de contornar e invento uma melhor ainda, e ele, tonto como é, ainda sai de ruim na história por ser tão ciumento e desconfiar de uma mulher direita assim, feito eu. Eu também escrevo umas coisas legais no signo dele, principalmente quando percebo que ele anda meio desconfiado. Peço que ele confie na pessoa amada e essas baboseiras todas. A mosca morta nem imagina que sou eu quem escreve tudo aquilo, e como não gosta muito dessas previsões, só lê porque uso a estratégia e insisto muito.
Quando arrumei o emprego no jornal, o Aristides quem foi comigo, a gente tava nos bons tempos do começo, e ele me recomendou que não contasse a ninguém, senão iam saber que é tudo mentira o que escrevo lá. Todo mundo acha que eu trabalho no Telemarketing, sabe? Só o Aristides sabe a verdade, o traste.
Ah doutor, mas o pior de tudo foi agora que o Paulão apareceu. O Paulão é do meu passado, entende? Namorei com ele quando era meninota, eu tinha dezoito anos e o Paulão já tinha trinta. Ele foi que me fez mulher, me desabrochou pra vida e agora, depois de dez anos, a tentação reaparece! Tenho dó é do Genival porque o coitado tá levando uns chifres na testa. Mas não tem jeito de resistir ao Paulão não doutor, mulher nenhuma consegue, não há meio. O homem é grande, bonito, cheiroso, Ave Maria! Dei até pra escrever no horóscopo dele, que é escorpião, que vai lhe voltar um antigo amor. E nem sei se ele lê, ou acredita nessas coisas, mas vai que... né?!
O senhor acredita que ele me mandou de presente uma calcinha de renda vermelha lá em casa? Genival quase enfartou! Tive que dizer que era brincadeira das meninas lá do call center. O Genival ainda queria que eu usasse com ele! Como?! Antes do Paulão, doutor?! Tive que sair com Paulão de emergência, numa terça feira à tarde, pra poder usar a calcinha com ele primeiro. Meu Deus! Fiquei boazuda com aquela calcinha hein, o senhor precisava ver! Azar é do Aristides, aquela mula que inventou de empacar e não me dar bola, azar o dele!
Então agora o senhor veja bem se eu não tenho motivo pra estar aqui. O único jeito de resolver tudo isso é sair desse emprego. Assim, continuo com meus homens, fico mais concentrada neles e não preciso ficar dando conselho pra essa mulherada desocupada aí, que fica lendo horóscopo no jornal. O senhor me veja aí minhas contas doutor, que eu vou embora. Não quero mais trabalhar aqui não.
E tem mais, o Genival não quer que eu ande com as meninas aqui desse lugar, por causa da história da calcinha vermelha. Disse que vai me pagar uma mesada só pra eu cuidar da casa! O Paulão tá que não se agüenta de tanta alegria. E tô perdida nessa confusão, doutor. O Aristides, aquele ordinário, tá com ódio e não quer mais que eu escreva o horóscopo, senão ele não arruma mais nenhuma namorada. O Genival pensa que sou telefonista, e nem gosta dessa história de signo, ele tem vergonha, só porque já nasceu Touro. Coitado, né?!
Tá vendo doutor, como meu problema é esse emprego?!

Samantha Abreu

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