terça-feira, 22 de agosto de 2006

Sobre a FLIP 2006

Em 2003, a Festa Literária Internacional de Parati era pequena em comparação aos outros festivais. Com a presença de autores respeitados até em âmbito internacional, a FLIP estabeleceu um padrão cada vez superior nos anos seguintes. Parati já recebeu através da FLIP grandes nomes da literatura mundial como Ian McEwan, Martin Amis, Margaret Atwood, Paul Auster, Anthony Bourdain, Jonathan Coe, David Grossman, Lidia Jorge, Rosa Montero, Enrique Vila-Matas, Marcello Fois. Dos brasileiros, alguns dos talentosos já marcaram presença, entre eles, Ariano Suassuna, Ana Maria Machado, Millôr Fernandes, Ruy Castro, Ferreira Gullar, Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura e Lygia Fagundes Telles, além de Chico Buarque e Caetano Veloso. A cada ano um ícone das letras brasileiras é homenageado. Vinicius de Moraes em 2003; João Guimarães Rosa em 2004; em 2005, foi a romancista Clarice Lispector; e em 2006, a FLIP prestou homenagem ao escritor baiano Jorge Amado.
A música brasileira, uma das nossas maiores riquezas culturais, não seria deixada de lado em um evento como esse, os shows de abertura ofereceram aos convidados oportunidades imperdíveis de ver e ouvir maravilhas como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto, José Miguel Wisnik, e nesse ano o show foi com Maria Bethânia.

A Festa se divide entre o que acontece na Tenda dos Autores, com as programações principais, e outros eventos como a oficina literária, realizada por grandes autores brasileiros e direcionada a jovens aspirantes a escritor. Além disso, existe até programação exclusiva para as crianças – a Flipinha, em que jovens estudantes de Parati apresentam seus trabalhos inspirados no universo literário – o que já significa um maravilhoso e exemplar incentivo à educação escolar - e participam de palestras com autores convidados. O crescimento da Festa está diretamente ligado à vida e às necessidades de Parati, onde os habitantes locais são ativamente envolvidos, criando o grande diferencial da FLIP em relação à outros encontros literários, e contribuindo para uma atmosfera alegre e calorosa que já se tornou característica do evento.


Vou colocar aqui, o trecho de uma coluna de Bruno Dorigatti, que ‘roubei” do site Portal Literal, com cobertura exclusiva sobre todos os dias da FLIP:

Esse trecho é sobre a Primeira mesa de escritores, entre eles, o “jabutizável” Marcelino Freire.


A primeira mesa da Flip começou bem humorada, trazendo diferentes visões e invenções do interior.
Marcelino Freire abriu os trabalhos e homenageou João Alexandre Barbosa, crítico e editor falecido na semana passada.
André Laurentino, que estreou com A paixão de Amâncio Amaro (Agir) no ano passado, fruto do seu trabalho desenvolvido na Oficina Literária da Flip em 2004, leu trechos de seu livro, que trata de três personagens neuróticos, com desvios de auto-imagem. Definindo o romance (não somente o seu, mas de modo geral) como o conflito entre a poesia do coração e o prosaico do mundo, sua inadequação e a reação à esta inadequação, Laurentino falou da aventura da alma que se perde no mundo e como resolve isso quando posta à prova.
Maria Valéria Resende, em seguida, leu trechos de seu primeiro romance, O vôo da guará vermelha (Objetiva), e comentou a cobrança - ela, que escreve contos há algum tempo - de quando este livro sairia. "Se você não faz um romance, é como se não fosse um escritor completo, assim como os cineastas que só realizam curtas", disse. Falou da obra como um varal, que trata do diálogo entre um jovem que corre o mundo para aprender a ler, com uma mala cheia de livros e histórias que poderia viver, e uma prostituta com AIDS que deseja morrer. "Foi neste varal que fui pendurando a história dos dois, histórias inventadas." Assim como ela, considera a sua obra ageográfica, "que embaralha a fauna, a flora e o vocabulário, porque não importa de onde é, onde se passa a história. É de todo lugar, como eu", disse ela, que também é freira. Maria Valéria respondeu sobre as diferenças e semelhanças entre a palavra do Senhor e do escritor. "A palavra de Deus foi encarnada, escrito por homens e portanto é humana, não conheço outro modo de chegar a ela. A literatura deve tratar de compreender os vários modos de ser humano, assim se chega a Deus. Afiando o olhar para compreender o humano e não se rendendo às classificações prontas que nos dão ou que eu inventei". Também falou da sua atuação na Paraíba, como participante do Clube do Conto e do projeto Livro em Roda. Criticou ainda o uso da palavra "carente", usada como substantivo, e o fato de que é sempre problemático definir o outro pela falta. "Todos somos carentes, mas carentes de algo. E também temos riqueza".
O terceiro convidado, Juliano Garcia Pessanha, leu um texto preparado para a ocasião, onde comentou sobre seus três livros - Sabedoria do nunca, Ignorância do sempre e Certeza do agora (Ateliê Editorial) - e as questões de interioridade que os envolvem. "A interioridade às vezes nos leva a lugar nenhum, ao abismo" e é necessário "devassar, rasgar este mundo de ets, mundo de figuras, pessoas sem corpo, sem morte, os blindadões que não se racham nem na desgraça". Para combater a asfixia deste tempo de autômatos é preciso escavar, arranhar o outro, para que a dor possa aparecer. "É preciso interromper o fluxo das sentimentações, como dizia Clarice, das sentimentações agendadas para chegar ao afeto. A literatura só acontece quando a palavra nos cala, precisamos dessa busca e da ressignificação", completou. Juliano trabalha com oficinas de escrita em hospitais psiquiátricos, onde consegue "pular o branco do social. As pessoas estão no rosto. E me sinto muito melhor lá do que na academia”. Fechou com aplausos da platéia e dezenas de cumprimentos ao final da mesa.



















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