sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Sonhos de criança

Aquele corredor, entre os muros que ligavam o quintal ao portão pela lateral da casa, lhe era assustador. Era um corredor cheio de fantasmas.
Todas as vezes que saía na porta de casa para seus afazeres diários, parava por alguns minutos e ficava olhando para ele. Era sempre assombrosamente tomado por aqueles pensamentos. Nenhuma força que fizesse para evitá-los era suficiente e eficaz, então, ao se entregar, fechava os olhos.
Via-se passando pelo corredor, a passos lentos. Era tão criança que quando olhava para cima, a altura daqueles muros parecia intransponível. Suas ilusões de criança eram criadas ali. Corria o dedo pelas laterais e sentia a aspereza dos tijolos sem acabamento de cobertura. Ainda de olhos fechados, ia passando lentamente, um pé na frente do outro, e os dedos acariciando aquelas paredes, relembrando com melancolia aquele espaço que já tinha sido só seu. Seu corredor de ilusões lúdicas. Para ele, criança, era ali que nasciam seus sonhos, que mais tarde ainda seriam sua essência louca de homem adulto.
Agora estava ele, envelhecido pelo tempo, acordando e encontrando-se parado mais uma vez frente àquele lugar. O significado daquele corredor agora era outro: era possuído por demônios que lhe seguravam as pernas enquanto passava, a passos urgentes. Fantasmas lhe atormentavam com toda frustração de criança podada. Seus sonhos infantis não tinham sobrevivido à sua alma adulta, de aspecto ríspido e semblante convencional.
Sonhos de criança assombram pessoas normais.



Samantha Abreu

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