sábado, 16 de setembro de 2006

A verdadeira tragédia


Jamais esquecerei aquele 11 de setembro. Quando acordei, estranhei que Hugo ainda estivesse em casa. Normalmente, ele já teria tomado banho, feito o café e saído para o trabalho. Mas não, ainda estava lá, sentado na sala, de camisa esporte.
- Precisamos conversar – ele disse.
- Fala – respondi com a boca seca.
- Eu estou indo embora.
Sem querer ouvir o resto, levantei-me e fui à cozinha. Debrucei-me sobre a pia com o corpo tremendo. Pensei em pegar uma faca.
- A chave está na mesinha – ele disse lá da sala.
Foi a última vez que ouvi sua voz. Soube depois que, nesse mesmo dia, aconteceu um acidente terrível em Tóquio ou Nova Iorque. Um avião egípcio bateu numa torre e derrubou uma antena de televisão. Não sei direito como foi a tragédia, mas duvido que tenha sido pior do que a minha.


conto publicado no livro Ao homem que não me quis
de
Ivana Arruda Leite

(“linkei” a página dela ali do lado, porque se tornou para mim, indispensável!)

Um comentário:

Paty disse...

Nossa! esse texto fala bem da velha história de que o que acontece com a gente sempre parece pior, nossos problemas são sempre mais difíceis, e nossos motivos sempre maiores!
Incrível!

Adorei!