sábado, 7 de outubro de 2006

O carro de Toninha

Toninha quis comprar um carro, foi lá e comprou. O que guardou do salário de faxineira deu certinho pra comprar um fusquinha 68. Vermelho? Bordô? Roxo? Um pouco de cada. Eram muitas as cores, as marcas de batida, capotamento, ferrugem. Medalhas conquistadas ao longo de muitos anos. Um carro com a história visível, inscrita na lataria.
Feliz da vida, Toninha voltou pra casa de carro novo. Ela, no banco do passageiro, o marido dirigindo. Toninha nunca teve cabeça pra tirar carta. Além do mais, era analfabeta. Mas obrigava o marido a levá-la para onde quisesse. Supermercado, Santos, feira, casa da sogra, tudo de carro. Toninha indicava o caminho e o marido guiava, de saco cheio. Mas ela era A Dona do carro, podia mandar em ambos.
Um dia o marido sumiu de casa com o carro de Toninha. Três dias, quatro e nada de notícia. No emprego, disseram que ele estava de férias. “Eu mato esse desgraçado, andando por aí com o meu carro e, provavelmente, com uma vagabunda dentro”.
Toninha foi à delegacia e deu parte. Não do sumiço do marido, mas do roubo do carro. “Um carro como esse é fácil de achar”, disse o delegado. E foi mesmo. No dia seguinte, o marido foi encontrado na Praia Grande. Voltou puto da vida.
- Porra, você nem dirige, pra que quer esta bosta de carro?
- Não dirijo, mas quero o carro parado aí na porta, pra enfeitar. Vou encher ele de samambaia.
O marido foi embora a pé. Maria Luísa o esperava no ponto do ônibus. O carro foi devorado pelas samambaias. Acabou apodrecendo dentro delas, feito um xaxim.


Ivana Arruda leite
conto publicado no livro Falo de Mulher

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