sexta-feira, 17 de novembro de 2006

De Volta


Quando chegou à soleira da porta, já podia ver toda a família esperando. Na verdade, era ela quem mais ansiava por aquele momento. Estava de volta ao mundo, de volta à vida. Dos anos anteriores ela queria apenas esquecer, e sentir aqueles momentos como se tivessem feito parte de um sonho ruim. As pessoas sorriam emocionadas, sua mãe com os olhos cheios d’água e tremor na voz. O pai carregava uma expressão de acalento que a deixava surpresa. Todos a abraçaram, parabenizaram pela cura, mas ela não tinha muitas palavras a dizer, tinha acostumado a falar pouco, a ser reservada.
Quando pensava em apagar da memória os anos passados naquela clínica, sentia um pequeno remorso, pois não queria abandonar as lembranças das boas amizades que havia feito, das companhias das quais tinha usufruído e das lições que havia aprendido. Todos lá eram considerados loucos, incapazes e inconseqüentes, mas ela conhecia cada dor que sentiam, cada saudade que lamentavam, e cada momento de lucidez que, às vezes, os dominavam. Eram pessoas alegres, conformadas, e que só pensavam em ser feliz. Por muitas vezes, ela sentia-se como eles e tinha muito medo da possibilidade de jamais se livrar daquelas dores e daqueles vazios.
Durante o caminho para casa, enquanto a família tentava enchê-la de atenção e contar tudo o que tinha acontecido em quase sete anos, ela era assaltada pela lembrança do dia no qual tinha sido internada. Agora entendia que a internação tinha sido o ato extremo de desistência da família que não sabia mais como controlá-la nem entendê-la. Desde a adolescência, enlouquecia os pais com problemas sentimentais e existenciais. Não sabia viver, não tinha sossego na alma. O peso e a angústia que vira nos olhos de seu pai quando a entregara aos médicos, lhe parecia uma fotografia indestrutível.
Quando entrou na sala de sua casa, sentiu aquele cheiro que lhe fazia tanta falta. Cheiro de lar. Seu quarto estava exatamente do mesmo jeito que havia deixado, nem mesmo algumas reformas interferiram em seu canto particular. A decoração cor-de-rosa indicando uma adolescência interrompida e congelada, o urso enorme que sorria como se reencontrasse uma velha amiga. Ao lado da cama ainda estavam as mesmas, e já antigas, revistas, os cds que lhe faziam companhia em noites e tormento. A cortina, combinando com a colcha da cama tinham nuvens brancas, e os babados caiam pelo chão como se ali dormisse uma princesa. Ela não sabia mais como entrar naquele quarto e voltar a fazer parte daquele mundo. As lágrimas explodiam como desabafo aliviado. Tudo ali era realmente seu, não tinha que dividir nada com ninguém. Pensou em fazer algumas mudanças, dar às cores um tom mais maduro, mas isso ficaria para depois que tivesse matado a saudade, revisto tudo o que havia deixado por terminar, e agora, de uma vez por todas, entender o porquê, naquela ocasião, havia desistido da vida. Deitou-se devagar entre as almofadas, olhando para o teto cheio de colagens em formas de lua e estrela. Sorriu. Sua vida estava recomeçando ali, no mesmo lugar onde, alguns anos antes, quase tinha acabado. Agora, sabia que estava ali porque tinha que viver, e estava tendo uma nova chance de aprender.
Suspirou, ligou o rádio, e ainda estava lá, a mesma música, que já não lhe despertava as mesmas sensações. Naquele momento, aquela música só trazia uma enorme vontade de continuar viva.


SAMANTHA ABREU
escrito em 17/09/2004

4 comentários:

Ricardo Dalai disse...

nao sou nao...
volto segunda pra londres...
mudou o nome de novo???
q absurdo...

bjus fidida
se der me liga pra gente conversar

ALLEZOOM disse...

OI
Samantha...ih! tô vendo ali que este não é bem seu nome.. rss pouco importa!!
Olha, brigadão pelos toques todos, viu?
bjs

Ricardo Dalai disse...

estive vendo...ta escrevendo bein hein fia...
bem clarice...uhuhuh

bjus

ALLEZOOM disse...

oi,tudo?
Samantha!!!
manda um end de e-m..fiquei com preguiça de re- escrever para te responder...rsbjssss