quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Enredo

O vício pelo samba lhe pegou ainda na adolescência. Da janela de casa, via a batucada subindo o morro e seu peito se enchia de vida. Mas, era vida daquela tão desejada e ao mesmo tempo, tão intocável. Vida explosiva e febril como a pele negra das baianas e das garotas da praia onde vendia os sanduíches que a mãe preparava.
Sempre fora criança ambiciosa, cheia de sonhos, ainda que sonhos infantis, como carrosséis e parques de diversões. Desejava final de semana no clube e queria amigas de cabelos lisos e loiros, como as que via no shopping. À escola só ia por obrigação, e lá ficava horas viajando por mundos tão diferentes do seu, perdida em devaneios enquanto a professora ensinava a lição.
Depois da adolescência veio a revolta pela juventude podada. A necessidade de emprego e de sustento. O sonho, que antes era de pura fantasia, passou a ser de sobrevivência. Não queria mais cabelos lisos, queria apenas comida na mesa.
Mas o samba estava lá, em todos os momentos, feito trilha sonora de uma vida longa demais para tanta luta e tanta privação. Depois de adulta, livre das amarras do pai, ela já pôde seguir o batuque e caía no samba de alma colorida. Usava esses momentos para descarregar toda a angústia da acelerada vida cotidiana que a fazia tão insignificante no mundo.
Subia a ladeira sambando em pé descalço, chegava ao alto do morro de corpo suado e sentia-se como as baianas que idolatrava na adolescência. Todos os finais de semana eram assim: fazia-se humana e entregue às delicias que a vida, de maneira extraordinária, podia lhe conceder, ainda que por tão pouco tempo.
Anos se passaram e ela, já conformada e acostumada com seu dia-a-dia, esperava durante toda a semana pela sexta-feira, para que lavasse a alma com o suor abençoado do samba. E era lá que se via mulher, era lá que se via Alzira de verdade.
Um dia, sábado de sol insuportavelmente quente, ela, já senhora respeitável e porta bandeira, subia o morro com as pernas fortes como sempre, ansiosas pelo cansaço estafante daquela alegria passional e envolvente. Só que ela não esperava que tanta paixão e febre lhe fariam tanto bem ao corpo e à alma, mas tanto mal ao coração.
Foi de súbito. Morreu vestida de baiana, enquanto a batucada subia o morro.
Os tambores não pararam, e o samba agora era em sua homenagem.


Samantha Abreu

Um comentário:

Ricardo Dalai disse...

"MEU CORAÇÃO PULSEIRA AO VER O TEU COLAR..."
I.A.L.

adoreiiii! demais!

brigado pelas tuas palavras
elogios vindos de ti são valiosissimos...
vamos marcar qualquer coisa pelo amor de DEUS!!!

Proxima manchete da Folha de Londrina:
RAPAIZINHO SE MATA DE SAUDADE DE AMIGA INGRATA