sexta-feira, 3 de novembro de 2006

A língua girava no céu da boca

A língua girava no céu da boca. Girava!
Eram duas bocas, no céu único.
O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre.
Eu, ela, elaeu.
Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu.
A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava.
Consumia-nos em piscina de aniquilamento.
Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência.
O sexo reintegrou-se.
A vida repontou: a vida menor.




Carlos Drummond de Andrade

(esse conto-poema é o melhor exemplo para as aulas de "como falar de sexo sem ser vulgar")

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