sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Pra não esquecer


Há tempos eles planejavam a mudança para aquele chalé em busca do sossego do mar, e tinham certeza de que seriam felizes ali. Contudo, essa mudança não aconteceu em um dos melhores momentos da relação. A praia, que deveria servir como plano de um futuro tranqüilo, tornou-se um refúgio e uma tentativa de salvarem o casamento.
Ele não suportava mais ouví-la reclamando dos atrasos, da bagunça, da toalha na cama, acordava praguejando até contra a paisagem maravilhosa que via da janela, e ainda por cima, não conversavam. Sabia que não tinha casado com aquela mulher, e tentava voltar ao momento da relação em que tudo tinha mudado. Embora sempre tivesse sido um cara simpático e alto astral, o mau humor dela o estava contaminando. Não estava se dando bem no trabalho, e por muitas vezes, pensava em não voltar para casa ao final do expediente para não ter que encontrá-la.
Decidiu arrumar uma amante. Não queria se separar da mulher, pois apesar daquela crise, ainda a amava muito. Queria na verdade, extravasar a frustração de ver sua namorada divertida e perfeita transformar-se em uma esposa tão amarga. Começou a ter pequenos casos com clientes do escritório onde trabalhava, e a cada envolvimento mais profundo, sentia-se voltando ao passado. A cada nova mulher que conhecia, fantasiava sua esposa nas épocas de namoro, sentia o cheiro dela ao sair do banho, o gosto da boca quando passava batom. Estava usando as amantes para voltar a amar sua esposa.
A crise conjugal foi mesmo ao ápice quando ela descobriu. Encontrou-o com a amante em um bar que freqüentavam quando namoravam. A moça tinha mais ou menos a idade dela quando os dois se conheceram. O engraçado era que a amante se parecia mesmo com ela: cabelo longo, olhos grandes e traços fortes. Ele ficou transtornado, não imaginava de maneira alguma perder a mulher com quem tinha planejado a vida. Passou dias tentando explicar à ela o que sentia, e o real motivo de ter procurado outra mulher. Ela não acreditava e nem entendia o fato de ele realmente procurar outras mulheres para não deixar de amá-la.
Depois de semanas de insistência e juras de amor ela resolveu considerar, mas impôs uma condição: queria ver todas as amantes que ele havia tido. Ao total, eram oito. Sete delas eram extremamente parecidas umas com as outras, tinham o mesmo estilo de beleza, os mesmos traços e quase sempre, a idade que ela tinha quando os dois começaram a namorar. Ela quase se convenceu até conhecer a oitava. Era loira, magra, olhos claros e pele bronzeada. Enlouqueceu de raiva. Só aceitou salvar o casamento, devido à sinceridade com a qual ele admitiu, depois de muito relutar, que ficara com a loira, pois lembrava a Luana Piovani. Ela berrou, chorou, até ameaçou matá-lo, mas acabou se derretendo quando ele disse que ela era bem mais interessante, inteligente e alegre que a Luana Piovani, e que a sósia, só era mesmo parecida de longe...


Samantha Abreu
escrito em 23/08/2004

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom isso...
vc, sensível como sempre.
falando de pessoas e sentimentos.

Vc é maravilhosa!