sexta-feira, 10 de novembro de 2006

A Praia


Os pés afundavam na areia molhada que entrava por entre seus dedos a cada vez que as ondas vinham e voltavam. Ela ao ver aquilo, sabia que seus pensamentos estavam do mesmo jeito dentro da cabeça. Por não estar certa do que queria da vida, do que deveria esperar, estava sentindo-se profundamente incomodada.
Ficava ali na praia pensando nisso por horas, e cada vez que levantava a cabeça, tirando os olhos dos pés disformes entre a areia molhada e olhava para o mar, sua vida parecia infinita. Vista de longe, parecia com certa razão, uma dessas pessoas doentes sentimentais, fugindo do mundo e procurando colocar a vida em ordem. Sempre que erguia o olhar e seus cabelos voavam, sua consciência ficava mais leve, mais calma, e não lhe importava o que os que a viam estavam imaginando.
Desde criança adorava aquele lugar, o mar era muito mais fascinante do que descreviam em livros e músicas, o mar era seu remédio. Representava para ela uma cura que talvez jamais compreensível para qualquer escritor ou compositor. Era tomada por um sentimento incrível, uma atração incontrolável pelos movimentos das ondas, como se elas estivessem lhe esvaziando tudo o de ruim que havia por dentro. Às vezes, depois de renovada pelo mar, ficava tentando avistar no horizonte aquela dor que sentia no momento em que havia se sentado na areia, e as ondas tinham levado embora. Parecia enxergar uma nuvem negra em um lugar ao longe, de onde já era impossível que aquela angústia voltasse para dentro do peito.
Durante suas piores crises, com a dor lhe parecendo insuportável, seu desprezo por si mesma e sua vergonha da vida eram tanto que chegava frente ao mar e sentia uma enorme tentação de sumir dentro dele, para que de uma vez aquele incomodo lhe deixasse em paz, mas as ondas brincavam com ela e teimavam em lhe curar à pequenas doses. Quando isso acontecia, quase derrotada ela parava na areia e gritava alto. O vento parecia carregar seu lamento para os quatro cantos do mundo. Suas lágrimas eram tão salgadas quanto a água do mar. Olhava para o céu e implorava uma resposta para tanta inquietação. O que mais queria era uma vida tranqüila, sem muito luxo nem incomodações. Almejava apenas não sentir aquele vazio que tomava seu corpo como se fosse oca. Perguntava-se o porquê de tanta complexidade. Esperava a resposta de si mesma, de Deus, do mar, mas nada acontecia. Ficava então quietinha, reparando na areia se torcendo por entre seus dedos dos pés, e chorando baixinho, soluçando, até esquecer.
De repente, levantava-se e punha-se a caminhar. Já se sentia outra pessoa, tomada completamente pelo encantamento e pela purificação da dança das ondas. A vida já nem precisava mais fazer sentido.
E a areia molhada continuava se torcendo entre seus dedos...


Samantha Abreu
escrito em 08/08/2004

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom!